A sexta-feira da semana passada foi triste para o mundo, para os brasileiros, para os mineiros e capixabas e, muito especialmente, para os aimoreenses. Faleceu naquele dia Sebastião Salgado, o fotógrafo que retratou, com genial maestria, os marginalizados da sociedade contemporânea. Natural de Aimorés, Minas, cursou Economia em Vitória e aqui se casou com Lélia, sua companheira de vida toda.
Foi nesse período que convivi mais de perto com Tião. Em Vitória, ele morava em uma pensão, na rua Pedro Palácios, ao lado da Escadaria Maria Ortiz, compartilhando o quarto com dois de meus melhores colegas de escola de Aimorés que, como eu, se transferiram para o Colégio Estadual do Espírito Santo para cursar o científico. Era a época em que Tião, estudante de Economia, se empolgava com as reformas de base defendidas por Jango e Brizola.
Algum tempo depois dividi um pequeno apartamento na rua Uruguai, na Cidade Alta, com um desses colegas, onde Sebastião tinha sido inquilino. Era a época da maior repressão do governo militar e as informações, só muito tempo depois confirmadas, diziam que Tião tinha ido para a Europa. Até então, como ele mesmo contava, Tião não havia tirado uma única fotografia.
Foi morando na Europa que Sebastião Salgado se apaixonou pela fotografia, usando, inicialmente, a máquina fotográfica da sua mulher. Nas viagens que fazia nos países africanos produtores de café, quando estava na Organização Internacional do Café, passou a retratar pessoas, sempre em preto e branco, se destacando por um estilo inconfundível que utilizava exclusivamente a luz natural. A partir daí a sua obra ganhou a admiração do mundo e seus álbuns – “Outras Américas” (1986), “Trabalhadores” (1993), “Terra” (1997), “Serra Pelada” (1999), “África” (2007), entre outros – se multiplicaram e foram exibidos em grandes exposições.
“Êxodos” (2000) foi um trabalho de seis anos sobre os movimentos migratórios do final do século 20. Sebastião retratou os refugiados que foram obrigados a deixar seus países por causa das guerras e da fome. Ao finalizar o trabalho, diante de tanto sofrimento, se disse descrente da humanidade e envergonhado por pertencer à espécie humana. Chegou a pensar em deixar a fotografia.
No documentário “O Sal da Terra” (2014), produzido pelos cineastas Juliano, seu filho, e Wim Wenders, Sebastião conta que venceu a depressão ao testemunhar o renascimento das nascentes e das matas no Instituto Terra, ONG por ele criada junto com a mulher em Aimorés, e que se dedica à recuperação ambiental, inicialmente de uma área – a fazenda de gado dos seus pais – que era completamente degradada. Foi acompanhando o renascimento da natureza no Vale do Rio Doce que Sebastião readquiriu o ânimo para voltar a exercitar o seu talento como fotógrafo.
Nasceram, então, os seus últimos projetos, “Genesis” (2013) – retratando mais de 30 regiões intocadas do planeta – e “Amazônia” (2021) – em defesa da preservação ambiental e da cultura dos povos originários da maior floresta do mundo. Por essas razões, a nota do Instituto Terra diz que Sebastião Salgado “foi muito mais do que um dos maiores fotógrafos do seu tempo” porque “ao lado de sua companheira de vida, Lélia Deluiz Wanick Salgado, semeou esperança onde havia devastação e fez florescer a ideia de que a restauração ambiental é também um gesto profundo de amor pela humanidade”.
Quis o destino que Sebastião Salgado falecesse no ano em que a Escola de Samba Independente de Boa Vista venceu o Carnaval de Vitória com o enredo “Os olhos do mundo, assombros de Sebastião Salgado”. Foi uma bela homenagem e um justo reconhecimento dos capixabas a quem aqui viveu e que tanto fez, na arte da fotografia e na proteção do meio ambiente, a ponto de deixar para todos nós, seres humanos, a maravilhosa e comovente mensagem de que é possível, apesar dos pesares, construir um mundo melhor para as próximas gerações.