Uma frase que sempre ouvi, desde criança, e que infelizmente vi comprovada ao longo da vida, é a de que o Brasil é o país da impunidade. Lembro-me que uma amiga, que trouxe o noivo americano para passar as férias no Rio, me contou que seu noivo alugou um carro e, no trânsito carioca, cometia inúmeras infrações como correr acima da velocidade permitida e desrespeitar o sinal luminoso. “Por que você faz tanta coisa errada aqui se lá nos Estados Unidos você cumpre as leis do trânsito?” perguntou ela ao noivo. A resposta que ouviu foi: “Porque aqui não acontece nada comigo”.
A história do Brasil, é preciso reconhecer, é cheia de crimes impunes em decorrência de razões sociais, culturais, legais, políticas, históricas etc, sem falar no famoso jeitinho brasileiro. Como pano de fundo desse cenário está uma estrutura judiciária lenta, burocratizada, emperrada, que remete os crimes de todos os tipos para a prescrição, principalmente aqueles cometidos por integrantes das classes mais abastadas, os famosos crimes do colarinho branco.
Mas eis que nos idos de 2005 um brasileiro, Joaquim Barbosa, teve a coragem de iniciar uma nova fase da história ao enfrentar os poderosos envolvidos no escândalo que ficou conhecido como “mensalão”. Ministro do Supremo, Barbosa levou à frente dezenas de processos que envolviam políticos em uma teia de corrupção gigantesca e assegurou a condenação de boa parte dos acusados.
Quando surgiu em Curitiba um juiz igualmente corajoso – Sergio Moro – disposto a enfrentar forças poderosas e levar à frente processos contra políticos e empresários que se locupletavam havia anos de um esquema de roubos bilionários na Petrobras, parecia que o Brasil havia, finalmente, escolhido o caminho de se livrar da corrupção de uma vez por todas. O juiz da Lava Jato lavou a alma dos brasileiros de bem que passaram a, novamente, acreditar que era possível passar a limpo a nossa história.
O juiz corajoso percebeu que forças poderosas ameaçavam a continuidade da Operação Lava Jato e acreditou que, como ministro da Justiça, poderia levar adiante o combate à corrupção. Se enganou, como se engaram todos os brasileiros que, um dia, acreditaram que seria possível que o Brasil, finalmente, deixasse de ser o país da impunidade.
Ao deixar o Ministério da Justiça, Moro se mostrava abatido, decepcionado e frustrado pela guerra perdida. Nós, brasileiros, estamos também abatidos, decepcionados e frustrados. E lamentando termos perdido, mais uma vez, a guerra contra a corrupção e a impunidade que tanto nos envergonham.