O fim da Lava Jato – simbolizada pela extinção da força-tarefa de Curitiba no último dia 3 – é, ao lado da desastrada tibieza no combate à pandemia, o mais grave dos equívocos cometidos pelo governo de Jair Bolsonaro. Nem é possível argumentar que o presidente da República nada tem a ver com o Ministério Público que, segundo a Constituição Federal de 1988, é uma instituição independente que exerce uma função jurisdicional do Estado e não do governo. O próprio Bolsonaro se encarregou, em outubro, de afirmar que foi ele quem acabou com a Lava Jato “porque não tem mais corrupção no governo”.
E se o presidente não tivesse confessado ser o autor do fim da Lava Jato, os fatos que se sucederam após as investigações da Polícia Federal terem se aproximado da sua família serviriam para revelar as suas digitais na condução do processo. Foram essas investigações que o motivaram a tentar interferir no comando da Polícia Federal, episódio que resultou na saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça em abril do ano passado.
Dois meses depois, o Procurador Geral da Justiça, Augusto Aras – que nunca escondeu a sua sintonia com o presidente desde a sua nomeação em setembro de 2019 – já fustigava a Lava Jato ao enviar a Curitiba uma subprocuradora com ordem de compartilhar os arquivos da força-tarefa. Logo após, Aras chegou a dizer que a força-tarefa mantinha uma “caixa preta” em Curitiba. Pregou uma “correção de rumos” para que “o lavajatismo não perdure”.
Agora, cumpriu a sua promessa – é, claro, com o aplauso do presidente da República e, também dos lulistas – acabando com a força-tarefa sob o pretexto de integrar os procuradores ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal do Paraná, o que, no seu entender, seria uma simples troca de nome. Mas não é, já que houve redução da equipe (dos 13 procuradores da força-tarefa só quatro vão para a Gaeco), fim da dedicação exclusiva e um claro prejuízo para as investigações.
Mais uma vez – nesse mar de mentiras e enganações da cena política brasileira – um político descumpre suas promessas de campanha. Bolsonaro, que foi eleito empunhando a bandeira do combate à corrupção a ponto de ter nomeado Moro, o símbolo maior da Lava Jato, como seu ministro, acaba com a maior iniciativa de combate à corrupção da história do país. Operação que, em suas 79 fases, emitiu 1,4 mil mandados de apreensão, realizou 132 prisões preventivas, apresentou 130 denúncias contra 533 acusados que resultaram em 278 condenações de 174 réus, inclusive cabeças coroadas da política e do empresariado, recuperando R$ 4,3 bilhões para os cofres públicos, sem contar outros R$ 11 bilhões que estão a caminho.
No meio da maior crise sanitária dos últimos cem anos, o Brasil, além de chorar os seus 233 mil mortos pela Covid-19, dá adeus ao sonho de deixar de ser o país da impunidade.
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