Sob o argumento de que o grau de risco de contaminação da Covid-19 se reduziu, governadores de vários Estados brasileiros, inclusive o do Espírito Santo, apressaram-se em anunciar a revogação da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos ou fechados.
Tais medidas, contudo, devem ser tomadas e divulgadas com prudência para evitar que a informação chegue à população como “o fim do uso de máscaras”, o que poderia contribuir até mesmo para a disseminação de uma nova onda de contaminação como, aliás, já aconteceu diversas vezes ao longo da pandemia.
É só constatar que o presidente Bolsonaro, que nunca foi a favor do uso de máscaras – tanto que, até hoje, se recusa a usá-las mesmo em ambientes com aglomeração de pessoas – já se adiantou e recomendou ao ministro da Saúde que busque uma alternativa para deixar de classificar a Covid-19 como uma pandemia (situação de emergência sanitária global) e passe a classificá-la como uma endemia (que apresenta um número de casos estável, mesmo que alto, de casos e mortes em local determinado), quando se sabe que tal decisão é da alçada da Organização Mundial de Saúde.
É preciso ter cuidado com o andor, porque o santo é de barro, como diz o ditado popular. São necessários cuidados com a comunicação dessas medidas de flexibilização para que o recado que chega à população não seja o de “liberou geral”. A pandemia continua presente como dá conta o novo surto identificado na China (e repiques de casos na Europa) como decorrente da nova variante Deltacron, uma combinação das variantes Delta com a Ômicron.
A Associação Médica Brasileira, com razão, tem alertado a população para manter o uso de máscaras já que, apesar da queda de casos e óbitos por Covid, as regiões do Brasil têm coberturas vacinais muito díspares. “Uma flexibilização indiscriminada pode ampliar os riscos à população, ainda mais a parcela não vacinada ou com esquema incompleto e, principalmente, os imunocomprometidos”, diz a nota da AMB.
No Espírito Santo, o governo revogou, em 14 de março, a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos e fechados em 12 municípios (considerados como os de risco muito baixo) e em ambientes abertos em 66 outros (com risco baixo). Mesmo assim, o secretário de Saúde alerta que não pretende “trabalhar com o conceito de retirada completa de uso das máscaras” porque elas são um “equipamento de proteção individual”. “Precisamos incorporar o uso das máscaras da mesma maneira como os países asiáticos ou orientais utilizam em períodos de maior frequência de doenças respiratórias”, disse o secretário.
Como tais informações nem sempre chegam com clareza às pessoas, é necessário que o Estado massifique orientações sobre o uso de máscaras, principalmente em locais de maior movimento como empresas, comércio, shoppings, condomínios, táxis e carros de aplicativos, ônibus, rodoviárias, aeroportos, escolas e feiras livres, para evitar o clima do “liberou geral”.
Afinal, ainda estamos em um patamar alto de casos (37 mil por dia no Brasil e 158 por dia no Espírito Santo) e de mortes (291 por dia no Brasil e 5 por dia no Espírito Santo) e não podemos nos descuidar. O que está em jogo é a nossa saúde e a saúde de todos que estão próximos de nós.