Se não bastassem a devastação da Amazônia, o desmonte do combate à corrupção, o uso do dinheiro público para fins eleitoreiros, a queda gigante do poder aquisitivo do povo e a desastrada política de saúde do governo federal (responsável em grande parte pela perda de milhares de vidas de brasileiros durante a pandemia da Covid-19), o Brasil está tendo que suportar duas ridículas histórias de assombração próprias de uma republiqueta de quinta categoria. Ambas histórias patrocinadas pela presidência da República.
A primeira delas é a fantasiosa campanha contra o processo eleitoral, que lança suspeição nas urnas eletrônicas, acusadas de não serem confiáveis. O mais espantoso é que a campanha continua sendo trombeteada pelo presidente – que alega que houve fraude até mesmo nas eleições em que foi vencedor –, mesmo não tendo ele apresentado qualquer prova disso quando foi instado a fazê-lo pelo Tribunal Superior Eleitoral no ano passado.
É preciso relembrar que o voto impresso chegou a ser proposto à Câmara dos Deputados por uma PEC (135/19) que foi rejeitada, em agosto, por não ter obtido os 308 votos necessários (teve 229 votos contra 218 e uma abstenção), 79 a menos do que seria preciso para lograr aprovação. Essa PEC foi proposta por uma das mais entusiasmadas seguidoras do presidente da República (a deputada Bia Kicis, do PSL) e contou com o repúdio até de partidos e parlamentares da base aliada ao governo. Na ocasião, o presidente da Câmara, o bolsonarista Arthur Lira, foi definitivo: “Espero que este assunto esteja definitivamente encerrado”.
O presidente da República, na época, assegurou que respeitaria a decisão do Legislativo. Mas não demorou muito para voltar à ladainha contrária às urnas eletrônicas. Mais recentemente tem utilizado a participação de militares na Comissão de Transparência das Eleições para insinuar que as Forças Armadas teriam encontrado vulnerabilidades no sistema eleitoral. O TSE esclareceu todas as questões levantadas, inclusive desmentindo que haja uma “sala secreta” de totalização dos votos como insinua o presidente da República.
A segunda história mal-assombrada que atormenta o país é a que tem como protagonista Daniel Silveira, um ex-policial militar que foi eleito deputado federal em 2018 na onda antipetista que elegeu Bolsonaro como presidente. O ápice dessa novela ocorreu no mês passado quando o Supremo Tribunal Federal condenou Silveira a oito anos de nove meses de prisão e, um dia depois, em retaliação, Bolsonaro concedeu perdão para a pena.
A condenação do deputado foi decidida por dez dos onze ministros do STF por ter Silveira estimulado atos antidemocráticos e realizar ataques a instituições e aos integrantes do tribunal. Antes, Silveira já havia desobedecido a ordem judicial de usar tornozeleira eletrônica – e por isso está pagando multa – e de não comparecer e participar de atos públicos.
Mesmo condenado em 20 de abril, Silveira continuou desobedecendo a Justiça: no dia 1º compareceu a manifestações e no dia 4 se recusou a receber a notificação que determinava o uso da tornozeleira eletrônica, a proibição de se ausentar do Rio de Janeiro (salvo Brasília) e a de frequentar e participar de eventos públicos. Agora, depois de tantas encenações, a advogada de Silveira diz que seu cliente quer um “diálogo respeitoso e técnico” com o STF.
É lamentável que tanto tempo de tantas pessoas seja perdido com essas ridículas e desnecessárias histórias mal-assombradas, enquanto os brasileiros seguem amargando os efeitos de uma inflação galopante e sofrendo o agravamento do desemprego e de tantos outros problemas sociais.