O meu artigo sobre a importância do jornalismo profissional para a sociedade estava pronto – porque no dia 7 de abril se comemora o Dia do Jornalista –, quando chegou, na véspera, a notícia do falecimento de Cariê Lindenberg. Quis o destino que essas datas se tangenciassem porque Cariê foi, com certeza, o personagem que mais contribuiu para a profissionalização do jornalismo e modernização da imprensa capixabas.
Faço essa afirmação como testemunha, já que ingressei em A Gazeta como jornalista em 1968, quando Cariê reestruturava a empresa, colocando em prática as recomendações da consultoria de dois profissionais que participaram de processo semelhante no “Jornal do Brasil”.
Testemunhei a empolgação de Cariê na contratação de novos profissionais, na implantação de um orçamento inovador e na estruturação da área comercial e das editorias na redação. No novíssimo Edifício A Gazeta, na Rua General Osório, estava sendo instalada a moderna rotativa off-set Goss Comunity, capaz de imprimir 16 mil exemplares por hora. Logo após a mudança para a nova sede, em 1969, mais inovações: a composição a frio por computador – com a aposentadoria das linotipos –, a modernização da diagramação, a telefoto e muitas coisas mais.
A empolgação era tanta que contagiou os funcionários. Nós, na nova redação, decidimos trabalhar de terno e gravata. Essa novidade, a bem da verdade, não durou muito, talvez uns seis meses. Mas demonstra a energia positiva que Cariê nos passava. Graças a ele, fui enviado ao “Correio da Manhã”, no Rio, para conhecer de perto a dinâmica de uma redação moderna.
Em paralelo, Cariê implementou o desatrelamento do jornalismo de A Gazeta da política partidária. Até então, o jornal adotava a linha política do PSD, Partido Social Democrático, depois sucedida pela da Arena, Aliança Renovadora Nacional, partidos pelos quais o pai de Cariê, Carlos Lindenberg, proprietário da empresa, havia exercido sucessivos mandatos de governador e senador.
Cariê contava que, em 1967, iniciou “um paciente, longo e exaustivo esforço” para desvincular o jornal do grupo político oriundo do PSD, processo que “se consolidou” em 1970. Esse processo foi tão marcante para mim que o adotei como objeto de estudo do trabalho de conclusão da pós-graduação que fiz em 2004.
Considero que a reorganização da empresa e a adoção de uma linha editorial independente e distanciada de partidos políticos, ao lado da visão empreendedora que, posteriormente, deu ao jornal a companhia de uma emissora de TV – consolidando a formação da maior rede de comunicação do Estado –, são as maiores contribuições de Cariê à modernização da imprensa e à profissionalização do jornalismo capixabas.
Infelizmente Cariê já não está mais entre nós. Mas o seu legado permanece, para nos estimular e confortar nesses tempos difíceis e muito tristes – e de tantas perdas – que estamos vivendo.