Arízio Varejão era um líder nato. Digo isso com certeza pelo longo tempo em que convivemos no Inocoop, o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais, instituição que, no Espírito Santo, nasceu pelas suas mãos e pelo seu idealismo aliado ao de Jones Santos Neves Filho. O Inocoop, nesses seus 57 anos de atuação no mercado capixaba, contribuiu para realizar o sonho da casa própria de mais de 40 mil famílias, o que não é pouca coisa.
Me aproximei de Arízio quando ele me contou que estava, junto com Jones Filho, Creso Euclydes, Waldir Furtado Amorim e Luiz Guilherme Santos Neves, iniciando os dois primeiros projetos do Inocoop de construção de casas populares em Fradinhos e Santa Inês.
Admirei o seu entusiasmo quando falou dos planos de criar novos bairros em Vila Velha como o Jardim Colorado e o Conjunto Militar. Estávamos sentados lado a lado em um ônibus da Viação Alvorada a caminho de Vila Velha, eu indo fazer a cobertura jornalística de uma sessão da Câmara Municipal e ele retornando para sua residência após um dia de trabalho.
Mal sabia eu que, pouco tempo depois, ainda estudante de engenharia, seria contratado pela construtora Ciec e, a convite de Jones Filho, passaria a integrar os quadros do Inocoop, me tornando colega de trabalho de Arízio. Foi a partir daí que testemunhei a liderança exercida por ele, não só como superintendente do Inocoop, como também quando esteve em outras instituições como o BNH, onde ocupou a Gerência da Carteira de Projetos Cooperativos, e o Banestes, onde foi presidente.
Devo a Arízio o aprendizado que tive no Inocoop onde ingressei como auxiliar de engenheiro e me tornei diretor em pouco tempo. Fui por ele escolhido para assumir a superintendência da instituição quando ele se licenciou para, no Rio, tomar posse na gerência no BNH. Trabalhamos juntos, entre 1971 e 1985, para viabilizar – o que muito me orgulha – os maiores núcleos de habitação popular do Espírito Santo.
No período em que convivi com Arízio no Inocoop, conversamos muito sobre nossas vidas pessoais e profissionais, sobre o passado, o presente e o futuro. Conheci as histórias da sua infância e juventude em Itaquari, de quando serviu o Exército, da perda precoce do seu irmão, da sua graduação como bacharel em direito e da sua trajetória na Sunab.
Testemunhei o sucesso da sua gestão como gerente do BNH. Ouvi a sua opinião quando decidi deixar o Inocoop para aceitar o convite de me tornar diretor da Rede Gazeta. Acompanhei à distância a sua passagem vitoriosa na presidência do Banestes, em 1989, posto que ocupou a convite do governador Max Mauro. E também a sua sucessão no Inocoop, com a passagem do comando para o seu filho Aristóteles.
Soube pela família que Arízio sentiu muito a perda, ocorrida há pouco mais de um ano, da sua mulher Marilita, companheira de 73 anos de convivência, “cinco de namoro e noivado e 68 de matrimônio”, como postou em uma rede social. “Cumpro essa missão” de cuidar da esposa, havia escrito pouco tempo antes, “no entardecer da vida”. Sobre Marilita, chegou a registrar que ela sempre esteve “pronta para enfrentar as grandes dificuldades” do início de suas vidas e que compartilharam juntos “dia a dia, o destino que Deus” a eles “reservou”.
Arízio também registrou nas redes sociais que gostava muito de um “lema de vida” que ouviu de um amigo: “Morrer jovem o mais velho possível”. Pelo que sei, vi e ouvi, ele seguiu o lema até o fim e cumpriu com dignidade os seus 92 anos de uma vida plena de realizações e bons exemplos. O convite para a “cerimônia de celebração” da sua vida confirmou essa certeza ao citar Timóteo: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé”.