A campanha eleitoral para a presidência da República tem oferecido aos brasileiros uma curiosa incoerência: os candidatos que se apresentam como favoritos na disputa – Lula e Bolsonaro – embora representem posições antagônicas do espectro político-ideológico, guardam uma série de semelhanças entre si. A começar pela incitação à violência escancarada em episódio recente em Foz do Iguaçu.
Que Bolsonaro faz seguidas conclamações à violência ninguém desconhece. Basta lembrar a defesa intransigente que ele faz para a população se armar. Não só faz a defesa como age: segundo levantamento da “Folha de São Paulo”, o governo Bolsonaro baixou 19 decretos, 17 portarias, duas resoluções e três instruções normativas que flexibilizam regras de acesso a armas e munições. O resultado: a quantidade de pistolas liberadas pela Polícia Federal no Brasil cresceu 170% entre 2018 (40 mil) e 2021 (108 mil).
Lula, por sua vez, foi o criador da divisão do país em “nós contra eles”, do apoio às invasões de terra do MST e da conclamação para “o Stédile colocar o exército dele nas ruas” porque “queremos paz e democracia, mas também sabemos brigar” como disse em 2015. Ou quando admitiu ter intercedido em favor da liberdade dos sequestradores do empresário Abílio Diniz em 1989.
Até na opinião sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula e Bolsonaro se parecem quando ambos buscam justificar a invasão. Sem falar que adotam estratégias eleitorais semelhantes quando decidem não participar, na atual campanha, dos debates promovidos pelas emissoras de televisão.
As semelhanças entre Lula e Bolsonaro não param aí. É só recordar que a grande base de apoio aos governos de Lula veio do chamado Centrão, o bloco político que, não importa quem seja o presidente da República, sempre procura, muitas vezes de forma não republicana, se beneficiar dos recursos do governo.
No caso dos governos petistas, foi a política de loteamento de cargos públicos entre os partidos do Centrão e da esquerda que resultou nos escândalos do mensalão e do petrolão. Já Bolsonaro, embora tenha feito sua campanha com críticas ao Centrão – o chefe da GSI, general Augusto Heleno, chegou a cantar no palanque “Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão” – não só está aos abraços com o Centrão como declarou, no ano passado, “Eu sou do Centrão” ao lembrar, com orgulho, que já foi filiado ao PP, PTB, PFL e PRB, partidos que integram (ou já integraram) o núcleo duro do Centrão.
Não é sem razão que lulistas e bolsonaristas estiveram juntos no desmonte da Operação Lava Jato que investigou e condenou muitos dos seus líderes. Os lulistas ao sustentarem campanhas contra a “República de Curitiba” e de perseguição aos promotores e ao juiz Sérgio Moro, e os bolsonaristas quando, através da PGR, acabaram com as forças-tarefa que investigavam os crimes de corrupção.
Mais recentemente, lulistas e bolsonaristas se uniram em votações no Congresso que direcionam o uso do dinheiro público para favorecer os seus interesses eleitoreiros e populistas como a distribuição de verbas sem critério do “orçamento secreto”, o inchaço dos fundos partidário e eleitoral e a “PEC Kamikaze” que distribui dinheiro à população desrespeitando o prazo estipulado pela legislação eleitoral e aprofundando o rombo nas contas públicas.
Vista por esses ângulos é possível antever que a eleição presidencial de 2022 pode ter um resultado previsível, seja qual for o candidato que venha a ficar em primeiro lugar: a vitória será do Centrão. E, ao que parece, não adianta ficar triste, meu irmão.