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Política

Não haverá terceiro turno das eleições no Brasil

Se há algo lúcido a ser feito pelos bolsonaristas, é abandonar a narrativa ridícula de que um algoritmo derrotou Bolsonaro e que Lula deve ser impedido, por um golpe militar, de tomar posse

Publicado em 18 de Novembro de 2022 às 02:00

Públicado em 

18 nov 2022 às 02:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

jccsvt@terra.com.br

Os bolsonaristas ainda sonham com um terceiro turno das eleições, recusando-se a aceitar o fato de as eleições terem terminado e que o seu líder foi derrotado. É melhor complementar a frase acima esclarecendo que quem ainda sonha com o terceiro turno é uma quantidade cada vez menor de pessoas. Até porque, ninguém desconhece, Bolsonaro recebeu votos de eleitores que não devem e nem podem ser classificados como “bolsonaristas”, já que muitos desses votos foram motivados pelo sentimento anti-PT de boa parte da população.
Por isso, as pessoas que se aglomeram em frente às instalações militares, empunhando a bandeira verde-amarela, cantando o hino nacional e gritando palavras de ordem que pedem “intervenção militar”, vão acabar compreendendo, cada vez mais, que não haverá terceiro turno. E que, se quiserem retornar ao poder, devem seguir o rito democrático e aguardar as próximas eleições. Assim como o ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, faz nos Estados Unidos ao lançar a sua pré-candidatura às eleições de 2024.
E que os bolsonaristas nem pensem em repetir os erros cometidos por Trump quando incentivou uma multidão a invadir o Capitólio na tentativa de impedir a proclamação da vitória de Joe Biden. Mesmo sabendo que o Brasil e os Estados Unidos são muito diferentes e, por isso, o ambiente político de um não deve ser comparado ao do outro, é possível compreender que a invasão do Capitólio é um exemplo que não deve ser seguido por qualquer país do mundo.
O próprio Bolsonaro já deve ter entendido que qualquer tipo de pressão defendendo intervenção militar é um tiro no pé de qualquer político. A intervenção militar é a própria negação da política como, aliás, ocorreu no Brasil pós 1964. Não demorou muito para que o governo militar suspendesse as eleições, dissolvesse os partidos e cassasse as lideranças políticas, mesmo aquelas que haviam apoiado a derrubada de Jango.
Muito provavelmente é por isso que o presidente, após ser anunciada a sua derrota, se refugiou no Palácio da Alvorada. Apesar de não ter reconhecido oficialmente a vitória de Lula – e não ter abandonado o surrado discurso de fraude nas urnas eletrônicas –, Bolsonaro pediu aos caminhoneiros, em vídeo, a desobstrução das rodovias e em momento algum incentivou manifestantes a acamparem nas portas dos quartéis.
De Bolsonaro não se deve esperar muita coisa, por isso uma recaída para um pronunciamento golpista não deve ser descartada. Mas se isso ocorrer, será mais um gol contra entre tantos já cometidos pelo presidente da República durante o seu mandato. Ou será que alguém ainda duvida que os constantes ataques ao sistema eletrônico de votação – esse mesmo sistema que elegeu uma maioria bolsonarista para o Congresso Nacional – foram uma das maiores razões para a rejeição de Bolsonaro, ao serem vistos como “choro de perdedor”?
Por isso, se há alguma coisa lúcida a ser feita pelos bolsonaristas – se é que radicais na política são capazes de fazer algo lúcido –, é abandonar essa narrativa ridícula de que um algoritmo derrotou Bolsonaro e que Lula deve ser impedido, por um golpe militar, de tomar posse. Melhor fariam os bolsonaristas se fizessem uma autocrítica para reconhecer os erros do seu governo e tratassem de organizar uma oposição madura, consistente e inteligente, que explorasse as derrapagens – que, mesmo antes da posse, já começaram a ocorrer – do futuro governo de Lula da Silva.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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