Em um curto período da nossa história – de 2005, data dos primeiros inquéritos do mensalão, a 2020, quando o ex-juiz Sérgio Moro deixou o Ministério da Justiça – o Brasil viveu a ilusão de que deixaria de ser o país da impunidade. Foi em 2005 que o ministro Joaquim Barbosa enfrentou poderosas resistências e levou o STF a condenar 24 cabeças coroadas, entre as quais um ex-ministro da Casa Civil, dois ex-presidentes e um ex-tesoureiro de partidos políticos e um ex-presidente e um ex-diretor do Banco do Brasil, além de parlamentares, publicitários e empresários.
Em 2014, tão logo foram condenados os réus do mensalão, surgiu a Operação Lava Jato que desnudou para os brasileiros o escândalo do petrolão e condenou 174 pessoas, entre as quais um ex-presidente da República. A Lava Jato comprovou um gigantesco esquema de corrupção na Petrobras responsável pelo desvio de mais de R$ 18 bilhões, dos quais R$ 5,3 bilhões já retornaram aos cofres da empresa graças à ação das forças tarefa da operação.
O propósito de ampliar o combate à “corrupção sistêmica e endêmica que sempre foi o modo de fazer política no Brasil” (como bem definiu o ministro Luís Roberto Barroso) motivou o juiz Sérgio Moro, que esteve à frente da Justiça Federal de Curitiba à época da Lava Jato, a renunciar a magistratura para tomar posse no Ministério da Justiça.
Foi quando as forças da reação, incrustadas nos três poderes da República, iniciaram o desmonte da Lava Jato a partir do fim da prisão dos condenados em segunda instância, do desmonte das forças-tarefa, da anulação de condenações por filigranas processuais e da inacreditável decisão pela parcialidade dos julgamentos de Sérgio Moro.
Dezesseis meses após ser empossado, Moro, decepcionado com o governo, pediu o boné e deixou o Ministério da JustiçaDezesseis meses após ser empossado, Moro, decepcionado com o governo, pediu o boné e deixou o Ministério da Justiça. A partir daí os responsáveis pela mais bem-sucedida inciativa de combate à corrupção do país passaram a ser perseguidos porque, como disse o ministro Barroso “os corruptos querem mais do que impunidade, querem vingança”.
A classe política fez a sua parte na vingança ao implodir a ingênua pretensão de Sérgio Moro de disputar a Presidência da República. Ao ex-juiz foram negados a legenda partidária e os recursos para minimamente divulgar a sua plataforma como candidato. Acabou triturado pela engrenagem da velha política em uma esdrúxula associação de interesses de praticamente todos os partidos, desde os da extrema esquerda aos da extrema direita passando pelo Centrão que abriga a maioria dos investigados pelo ex-juiz.
O mais recente capítulo da vingança chegou sob a forma de uma “ação popular” liderada por parlamentares do PT que subscreveram documento de advogados do grupo “`Prerrogativas” acusando Moro de “manipular a Petrobras como mero instrumento ao acobertamento dos seus interesses pessoais” o que teria levado a economia brasileira a acumular um prejuízo de R$ 142,6 bilhões e a perder 4,4 milhões de empregos.
Tal argumento – de que a Lava Jato teria causado prejuízos ao país – já tinha sido levantado em uma das sessões do STF pelo ministro Ricardo Lewandowski. Sustentou o ministro que a operação “produziu, pelo menos, três vezes mais prejuízos econômicos do que aquele que ela avalia ter sido desviado com a corrupção”. A melhor resposta a Lewandoswski foi dada, na ocasião, pelo ministro Luís Roberto Barroso: “Vossa Excelência acha que o problema então foi o enfrentamento da corrupção e não a corrupção?”
É essa, infelizmente, a inversão de valores que o Brasil vive atualmente, onde ainda há lugar para gente que, por mais absurdo que isso seja, pensa que os brasileiros são idiotas a ponto de acreditar que é o combate à corrupção – e não a corrupção – que destrói o nosso país.