Não é preciso ser um especialista para interpretar o gráfico que mostra o avanço do coronavírus no Brasil. Desde a primeira morte em decorrência da pandemia, ocorrida há três semanas, em 17 de março, a quantidade de óbitos saltou, nos dias seguintes, para 4, 6, 11, 18, 25 e assim por diante, até atingir 553 no dia 6 de abril, 667 no dia 7 e 800 no dia 8. Ou seja, em 7 de abril, terça-feira, a quantidade de óbitos em um único dia foi de 114; no dia seguinte esse número chegou a 133.
Diante de números assim, é previsível que a quantidade aumente ainda de forma exponencial por várias semanas. A conclusão é óbvia: ainda estamos longe do ápice da doença quando, espera-se, a curva dos novos casos de contaminação e de novas mortes venha a se estabilizar para, em seguida, decrescer. “Ainda estamos no início da ascensão da curva epidêmica”, alerta o epidemiologista Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os especialistas mais otimistas acreditam que a situação só começará a melhorar na segunda semana de maio.
E nem é preciso pensar que o Espírito Santo, que contabilizou na manhã de quinta-feira a 7ª morte, está entre os Estados menos infectados. Wanderson Oliveira, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde cita Vitória como uma das sete capitais que merecem atenção especial por terem mais de 16 casos por 100 mil habitantes. Com 17,1 infectados por 100 mil habitantes Vitória tem mais incidência de contaminação que o Rio de Janeiro (16,5), segundo números divulgados na terça-feira.
Mesmo assim, o que se vê? Algumas autoridades – e, acreditem, até o presidente da República – defendendo explicitamente o afrouxamento do isolamento social. Quando se sabe que até os Estados Unidos e o Japão, que resistiam a adotar um regime mais rígido de isolamento social, se dobram à realidade e começam a tomar medidas mais duras contra a circulação de pessoas, é um contrassenso adotar a direção contrária.
Até porque, convenhamos, o nosso sistema de saúde possui condições limitadíssimas de enfrentar uma pandemia de grandes proporções. Se os sistemas de saúde de países do primeiro mundo, como a Itália e a Espanha, entraram em colapso, imagine o que poderá acontecer com o nosso SUS, super demandado mesmo sem pandemia? Em Manaus, por exemplo, já não há mais leitos disponíveis para atender os doentes.
Em plena Sexta-feira da Paixão, só nos resta, então, pedir a Deus que nos proteja. E que perdoe aqueles que, coitados, na ignorância retratada no Mito da Caverna de Platão – citada na entrevista que o ministro Mandetta concedeu no final de semana – não conseguem enxergar a verdade por mais óbvia que ela seja.