Quis o destino que os extremos mais radicais da política brasileira se unissem em torno de uma bandeira indesejável para os que sonham com um país sem corrupção. Bolsonaristas e lulistas se perfilam lado a lado para comemorar o sepultamento da Lava Jato, a maior e mais bem sucedida iniciativa de combate à corrupção da nossa história.
Os interesses dos dois grupos estão claros e convergem para um único momento: as próximas eleições. De um lado, há o interesse de Bolsonaro de enfrentar Lula nas eleições de 2022 para repetir a polarização de 2018, quando o petismo desidratado pelos escândalos do petrolão foi o adversário ideal para ser nocauteado. De outro lado, a obsessão petista de ter Lula como candidato a presidente mesmo sabendo ser ele um nome incapaz de unir as oposições e, por isso, ser o adversário preferido por Bolsonaro.
É evidente que há razões subjacentes que se somam às do interesse nas eleições de 2022. Liquidando a Lava Jato, Bolsonaro afasta o perigo iminente de as investigações das forças-tarefa chegarem mais próximas de seus familiares. E, além disso, desgasta a imagem de um potencial candidato a presidente – Sergio Moro – que, segundo as pesquisas, seria o que possui maior possibilidade de enfrentá-lo de igual para igual em 2022.
Já os petistas sonham em inocentar Lula, mesmo que isso seja feito tentando desmoralizar quem investigou e julgou ao invés de apresentar provas de que ele não cometeu os crimes pelos quais foi condenado à prisão. Até porque, convenhamos, é insustentável a tese de que não houve corrupção nos governos petistas diante das confissões de tantos envolvidos, entre os quais dirigentes de empresas estatais, políticos e empresários que devolveram R$ 4 bilhões aos cofres públicos, sem contar outros R$ 11 bilhões que estão a caminho.
O governo Bolsonaro realiza o desmonte da Lava Jato desde a nomeação de Augusto Aras como Procurador-Geral de Justiça. É de Aras a afirmação que a força-tarefa mantinha uma “caixa preta” em Curitiba e que iria agir para que “o lavajatismo não perdure”. Foi Aras que, no dia 3, extinguiu a força-tarefa de Curitiba, o símbolo maior da Lava Jato.
Os ex-integrantes da força-tarefa ainda correm o risco de serem processados com base nas mensagens que teriam trocado em redes sociais e que foram obtidas de forma ilegal pela ação de hackers. A defesa de Lula pega carona nessa mesma linha para tentar provar que o julgamento não teria sido imparcial.
O capítulo final dessa novela provavelmente será algo como o que aconteceu na Itália onde os corruptos condenados pela Operação Mãos Limpas conseguiram, através de manobras políticas, deixar de ser criminosos para posar de acusadores.
* Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta