A sexta-feira da semana passada, 5 de maio de 2023, ficará marcada na história como a data em que a Organização Mundial de Saúde declarou o fim de emergência internacional de saúde em decorrência da pandemia da Covid-19. Não é a data do fim da doença, como bem lembram os especialistas, mas é o ato que oficializa a situação atual em que as infecções estão se reduzindo assim como a quantidade de vítimas fatais. A OMS registra 7 milhões de mortes e quase 700 milhões de casos pela Covid-19, mas esses números, na realidade, podem ter sido bem maiores.
O fim do estado de emergência da pandemia nos faz refletir sobre o desespero que representaram esses três anos. No Brasil, foram quase 40 milhões de casos e 700 mil óbitos, ou seja, aqui foram constatados 5% dos casos de contaminação e registradas 10% das mortes.
E a pergunta que emerge nesse oceano de sofrimentos é uma só: quantos desses casos e dessas mortes teriam sido evitados se o país tivesse, na época, um governo que efetivamente seguisse as orientações da ciência transmitidas pelas autoridades sanitárias mundiais?
Porque, convenhamos, basta relembrar o comportamento do presidente da República na época, Jair Bolsonaro, para concluir que o combate ao coronavirus no Brasil esteve nas mãos de uma pessoa que não só não acreditava na gravidade da pandemia como fez de tudo para prejudicar o combate à doença ao não seguir as recomendações da ciência.
Bolsonaro criticou o isolamento social, promoveu aglomerações, não usou máscaras de proteção e chegou ao cúmulo de tentar desacreditar a eficácia das vacinas ao mesmo tempo em que propagandeava o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes para combater a doença.
Não podemos – e não devemos – esquecer as dezenas de frases infelizes que o então presidente da República repetia na sua campanha de negação da pandemia. Como quando se referiu à Covid-19 como “uma gripezinha” e disse não ser “coveiro” ao ser cobrado pelo crescimento da quantidade de mortos, na época pouco mais de 2 mil.
Quando o país somava 31 mil mortes, em junho de 2020, minimizou o fato ao dizer que morrer é “o destino de todo mundo”. Ao criticar o isolamento social conclamou o Brasil “a deixar de ser um país de maricas” em 10/11/2020, quando tínhamos 162 mil óbitos.
Pior fez o então presidente ao tentar desacreditar as vacinas em 17/11/2020, ao dizer que “se tomar vacina e virar jacaré o problema é seu”. Em fevereiro de 2021, mesmo com 236 mil brasileiros mortos, disse que “o cara que entrar na pilha da vacina é um idiota”. E, alguns dias depois: “Chega de frescura e mimimi; vão ficar chorando até quando?”
Em entrevista a jornalistas estrangeiros, em 8/9/2021, enquanto os brasileiros choravam 584 mil pessoas mortas, Bolsonaro disse que “a Covid apenas encurtou a vida delas por alguns dias ou algumas semanas”.
Felizmente, em muitos lugares do país – como o Espírito Santo – a Covid foi levada a sério e compreendida como a mais grave catástrofe sanitária dos últimos cem anos. Uma gestão extremamente competente de dois técnicos à frente da Secretaria da Saúde – Nésio Fernandes e Luiz Carlos Reblin – garantiu aos capixabas os profissionais de saúde, os equipamentos, os medicamentos e os leitos de UTI necessários para atender os casos de maior gravidade e minorar o sofrimento dos contaminados.
Nesses três anos de pandemia, o mundo ficou mais pobre, mais sofrido e mais triste. E nos tornamos também pessoas mais conscientes de que estamos vulneráveis a crises que nunca imaginávamos que poderiam nos atingir. Não devemos nos esquecer de agradecer a Deus pela graça de termos conseguido superar o período mais difícil da pandemia.
E esperamos ter aprendido a lição de que devemos continuar a seguir as recomendações da ciência – entre as quais a de se vacinar – e manter os cuidados mínimos para não sermos novamente surpreendidos por pandemias tão destruidoras como a da Covid-19.