Ao retornar à Rede Gazeta, em 1985, meu cargo era o de Diretor de Desenvolvimento e Projetos Especiais. O “Projetos Especiais” tinha a ver com duas iniciativas de Cariê Lindenberg para marcar a participação da Rede Gazeta em dois momentos importantes da história: a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, anunciada por Tancredo Neves na campanha presidencial para virar a página dos 21 anos de regime militar, e a proximidade da chegada de um novo século e os desafios e oportunidades que ele representava para o Espírito Santo.
O primeiro projeto – “O Espírito Santo na Constituinte” – pretendia, com a OAB-ES e Ufes, “mobilizar a comunidade capixaba para o processo constituinte”, “oferecer subsídios aos trabalhos da futura Assembleia Constituinte” e “submeter a debate público temas fundamentais, instigadores de reflexões e discussões”. O segundo projeto, que contou com a participação de várias instituições, foi o “ES Século 21 – geração do futuro capixaba”, que se dispunha a definir estratégias para que o Espírito Santo passasse “da dependência à autodeterminação das mudanças” e “da concentração à equidade espacial e social”.
Os projetos mostravam a disposição de Cariê em contribuir para a construção de um futuro melhor para a sociedade capixaba. Com relação à Constituinte, o propósito era o de dar maior protagonismo aos constituintes capixabas em discussões como as dos direitos e garantias fundamentais, federalismo, parlamentarismo e presidencialismo, equilíbrio dos poderes do Estado, educação, cultura, distribuição da justiça, e moralidade da coisa pública, entre outros temas de interesse do país.
A intenção do “ES Século 21” era a de contribuir para “legar um Espírito Santo potencialmente melhor” para as futuras gerações, minimizando os problemas decorrentes da dependência das decisões tomadas fora das fronteiras capixabas e da “concentração de privilégios” na Grande Vitória “em detrimento do interior”, como ressaltava o projeto inicial elaborado por Lélio Rodrigues em 1985.
Participei de ambos os projetos – junto com Ricardo Velo e Odilon Borges, no “ES na Constituinte”, e Geraldo Rocha e Roberto Simões, no “ES Século 21” – e constatei os seus resultados. O auditório da Rede Gazeta esteve superlotado nos debates sobre a Constituinte que contou, entre outras, com as participações de Paulo Brossard, Raymundo Faoro, Bolivar Lamonier, Marco Maciel, José Serra, Lula, Ulysses Guimarães, Sandra Cavalcante, Eros Grau e Paulo Bonavides. As sugestões dadas foram encaminhadas e debatidas pelos constituintes capixabas antes da votação do texto da nova Constituição.
O “ES Século 21” produziu pesquisas de opinião, monografias e seminários temáticos em Vitória e no interior e, como produto final, um documento, o “Agendas para o futuro”, consolidando as contribuições do trabalho que foi publicado em A Gazeta e entregue, em evento realizado em 1991, às autoridades, entre as quais o governador Max Mauro.
São esses projetos partes do importante legado deixado por Cariê Lindenberg para as histórias da Rede Gazeta e do Espírito Santo.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta