A polarização extremada entre o bolsonarismo e o lulismo, que persiste por quase uma década, mostra, com clareza, a escassez de novas lideranças no Brasil. Tanto Bolsonaro como Lula, ao exercerem um populismo que gravita essencialmente em torno de seus atributos pessoais, impedem o surgimento de novas lideranças.
Não é por outra razão que a esquerda não tem um nome sequer capaz de substituir a liderança de Lula, assim como a direita continua gravitando – até quando? – em torno de Bolsonaro e sua família. E o centro democrático não se mostra capaz de lançar um único nome em condições de romper essa polarização.
Esse é o retrato da pobreza do ambiente político brasileiro que se ocupa em agredir e multiplicar discursos de ódio nas redes sociais ao invés de discutir civilizadamente propostas que possam solucionar os graves problemas do país.
É importante lembrar que o populismo e a escassez de novas lideranças não estão presentes somente no Brasil. Basta lembrar de Trump, Putin e Xi Jinping e de tantos outros líderes mundiais para perceber que o culto à personalidade não é exclusividade do Brasil. Há pouco tempo atrás, Maduro, como herdeiro político de Chávez, poderia também ser tranquilamente incluído nessa lista.
Voltando ao território verde-e-amarelo, o que é possível fazer para tentar alterar essa situação? Afinal de contas, é a renovação das lideranças que permite, com eficácia, a alternância do poder, o exercício pleno da cidadania, considerando a importância da participação popular em um regime que se quer democrático.
Porque, como ensinou Churchill, a democracia é o pior regime, com exceção de todos os outros. Ou seja, a democracia tem os seus defeitos, as suas falhas e imperfeições, mas é a melhor entre as formas de governo que a humanidade já teve e tem.
Para suprir esse vácuo, o ideal seria se os partidos políticos, através dos seus institutos ou fundações de formação política, cuidassem de formar novas lideranças que se tornassem capazes de assumir postos de gestão pública. Esses institutos e fundações existem, e alguns têm nomes de renomados políticos do passado que poderiam servir como exemplo para os jovens que desejam ingressar na vida pública: Ulysses Guimarães (MDB), Perseu Abramo (PT), Teotônio Vilela (PSDB) e Álvaro Vale (PL), por exemplo.
O que ocorre, entretanto, é que os partidos políticos no Brasil quase sempre só funcionam nas vésperas das eleições, sendo baixa, para não dizer nula, a participação direta de seus filiados em suas ações. Esses institutos ou fundações de formação política nem sequer são conhecidos dos filiados e do eleitorado em geral. Eles bem que poderiam ser reestruturados para passar a cumprir a sua finalidade de formar novas lideranças. Exemplos de como fazer isso não faltam: o RenovaBR, o Libertas e o Líderes do Amanhã têm obtido resultados fantásticos com seus cursos de formação política.
O Renova BR é um dos casos de sucesso. Com oito anos de atuação como escola pluripartidária, sem fins lucrativos, “por uma democracia mais participativa e informada”, formou 3,5 mil lideranças políticas sendo que, dessas, 440 disputaram e venceram eleições. Dos líderes que passaram pelo RenovaBR, 44 se tornaram prefeitos, 25 vice-prefeitos, 296 vereadores, 10 deputados federais, 10 deputados estaduais, 1 senador, e 538 atuam na gestão pública, sem falar em 955 que agem como lideranças públicas ligados a 29 diferentes partidos.
Só assim, com lideranças formadas em torno de propostas de transformação – e não atreladas ao populismo e ao culto a personalidades –, seria possível a construção de um país que vivenciasse verdadeiramente uma democracia mais participativa e bem informada. Quem sabe esse é o caminho para preencher o vácuo de lideranças que a política atrasada e populista insiste em nos impor.