O Espírito Santo é um celeiro de obras públicas que atravessam décadas sem serem concluídas. Foi assim com a Segunda Ponte de Colatina por sobre o Rio Doce, a Terceira Ponte Vitória-Vila Velha, o Contorno de Vitória ligando a Ceasa a Carapina, o aeroporto, obras que levaram mais de uma década para serem finalizadas. Sem falar da ponte de Itapina que nunca foi (e nem será) terminada. Não é novidade para ninguém que uma obra pública se arraste por muito tempo nesta terra de Maria Ortiz e Domingos José Martins.
Por isso, não é surpresa para ninguém conviver com os 11 anos da obra do Cais das Artes, na Enseada do Suá, em Vitória, que permanece até hoje sem solução e data para acabar. O autor do projeto arquitetônico, o capixaba Paulo Mendes da Rocha, um ícone da geração de arquitetos modernistas – premiado em 2016 com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza pelo conjunto de sua obra – infelizmente não poderá testemunhar a sua inauguração já que faleceu em maio do ano passado. Mas Paulo, como lembra Arlindo Villaschi em texto publicado em 27 de janeiro em A Gazeta, estava presente quando, em março de 2020, o governador Renato Casagrande prometeu que a obra seria concluída.
A obra enfrentou uma série de problemas desde quando foi iniciada em 2010. A construtora foi à falência, a segunda contratada também paralisou os serviços em 2015 e há pendências judiciais a serem resolvidas antes da nova retomada das obras. É preciso considerar, também, que a pandemia da Covid-19 afetou toda a sociedade, aí incluídos os serviços públicos de todos os níveis. É compreensível, pois, que o reinício da obra, tantos anos depois de ter sido paralisada, seja cercado de todos os cuidados técnicos, orçamentários e jurídicos.
O que não é compreensível, entretanto, é que nesta altura dos acontecimentos, “faltando pouco” para a conclusão – como disse à TV Gazeta o secretário Estadual de Cultura na terça-feira (8) – o governo anuncie estar estudando outra alternativa para dar continuidade aos serviços, além do acordo que está sendo costurado com a empreiteira, com o aval do Tribunal de Contas. A outra alternativa seria viabilizar uma PPP (Parceria Público-Privada) para abrir espaço no Cais das Artes para “o mundo das startups”, como disse o secretário de Cultura.
Não há nada de errado em que seja estudada uma PPP para gerir o funcionamento do Cais das Artes, como bem lembrou o representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil que se coloca contra a mudança da concepção do Cais das Artes. Mas agregar o funcionamento de empresas de tecnologia em um espaço originalmente projetado para abrigar atividades artísticas e culturais não é certamente o melhor caminho.
Até porque é preciso registrar que Vitória tem entre seus principais projetos a implantação, em Goiabeiras, ao lado da Universidade Federal do Espírito Santo, do Parque Tecnológico Metropolitano, um espaço que se destinará a “atrair empresas de base tecnológica, como (...) agentes de fomento à ciência, incubadoras, empresas de software, entre outras” como anuncia a Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória. Arlindo, no seu texto de 27 de janeiro, sugere que as startups poderiam ser abrigadas no Centro Histórico de Vitória utilizando as “edificações hoje vazias ou parcialmente desocupadas”, através de incentivos que possibilitassem a revitalização daquela área.
O Espírito Santo, como lembra o IAB-ES, é o único Estado do Sudeste que não possui um museu e teatro de grande porte, o que inviabiliza “o acesso e a permanência de obras de arte e peças internacionais”. O Cais das Artes representará também o estímulo que permitirá a valorização da cultura capixaba, com reflexos diretos no turismo e na educação. Por isso, não merece ser descaracterizado por outras atividades que deveriam ser direcionadas para locais mais adequados e já disponíveis na Capital.