Tudo indica que viveremos um processo eleitoral tenso e conturbado. Essa expressão foi a utilizada pelo presidente Bolsonaro em um evento com empresários em São Paulo na última segunda-feira. Disse o presidente: “Tudo pode acontecer. Poderemos ter outra crise. Poderemos ter eleições conturbadas. Imagine acabarmos as eleições e pairar para um lado, ou para o outro, a suspeição de que elas não foram limpas?”
Por isso, podem ter certeza: é bem possível que as campanhas eleitorais sejam marcadas por confrontos que certamente resultarão em violência verbal e, quem sabe?, até física. E é certo que nas redes sociais vão estar presentes – como já estão – as famosas fake news espalhando desinformações.
Não é por outra razão que o Tribunal Superior Eleitoral tem veiculado campanha alertando o eleitor para que busque fontes confiáveis de informação ao invés de dar crédito a notícias espalhadas por milícias digitais. Milícias essas que estão sendo investigadas no inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.
É exatamente esse inquérito que tanto tem preocupado Bolsonaro, já que ele é um dos investigados. Foi por isso que na terça-feira passada ele deu entrada no STF em um pedido de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, a quem acusou de abuso de autoridade por atacar a democracia, desrespeitar a Constituição e desprezar os direitos e garantias fundamentais.
O pedido foi prontamente rejeitado pelo ministro Dias Toffoli que identificou nele a intenção de transformar “o juiz em réu pelo simples fato de ser juiz”. A ação de Bolsonaro é uma clara preparação para um futuro questionamento da imparcialidade de Moraes no processo eleitoral.
Fica fácil perceber que quem deseja que as eleições sejam “conturbadas” é o próprio Bolsonaro. É dele a conclamação à população brasileira para que se arme “para defender a democracia”. Como bem se expressou o jornalista Merval Pereira, essa declaração “é de uma irresponsabilidade sem tamanho” porque deixa claro que, se perder as eleições, Bolsonaro “vai dizer que foi roubado e fará um tumulto para impedir a posse de quem foi eleito (...); está preparando uma milícia para reagir ao resultado das urnas”. Tudo no mais perfeito figurino encenado por Donald Trump nos Estados Unidos.
A radicalização do discurso de Bolsonaro contra as urnas eletrônicas faz parte desse contexto. Bolsonaro tem utilizado com frequência referências a questionamentos feitos pelos representantes militares na Comissão de Transparência Eleitoral – questionamentos esses que, embora tenham sido feitos fora do prazo estipulado no calendário eleitoral, foram devidamente respondidos e esclarecidos pelo TSE – para turbinar suas afirmações de que as urnas não seriam confiáveis. É a repetição dessa ladainha, mesmo sem provas – como ocorreu no evento dos empresários de São Paulo – que faz parte da preparação para criar um clima de crise e instabilidade no processo eleitoral que está em curso.
Em um país que em 2017 havia 638 mil registros ativos de armas de fogo na Polícia Federal, número que passou para 1,28 milhão em 2021, “tudo pode acontecer”. Por isso, brasileiros, preparem seus espíritos: as eleições de 2022 infelizmente serão realmente “conturbadas” como tem propagado o presidente da República.