O maior adversário do governo Bolsonaro é o próprio governo Bolsonaro. Basta relembrar algumas das suas trapalhadas, a maioria delas comandada pelo presidente, para verificar que boa parte das crises enfrentadas pelo governo foi turbinada por ele próprio. A mais recente delas foi a pregação de Bolsonaro contra a política de preços da Petrobras, chegando a propor a criação de uma CPI para investigar uma empresa na qual o governo é o principal acionista.
Não é de hoje que o presidente busca se eximir de qualquer responsabilidade com relação ao aumento dos preços dos combustíveis jogando a culpa na Petrobras e nos governos dos Estados. Aliás, jogar a culpa para o colo dos outros tem sido uma especialidade de Bolsonaro. Segundo ele, a democracia está em risco por culpa do Supremo Tribunal Federal. Na Covid-19 a culpada é a China. O desemprego, para ele, é culpa dos governadores. Os culpados pela inflação são Joe Biden e a Ucrânia. Todos são culpados, menos ele, é claro.
A última semana foi pródiga de ataques do presidente à Petrobras. Ele chegou a ameaçar a entrar na Justiça contra a empresa por ela não estar “cumprindo o seu papel social”. Em seguida, pressionou pela renúncia do presidente da Petrobras, o que acabou ocorrendo na última segunda-feira (20). Foi a terceira troca do presidente da estatal ocorrida no seu governo. Antes, havia dito que o lucro da empresa é “um estupro” e “um crime”. Não é preciso ser um especialista no assunto para perceber os enormes prejuízos que tais ações causam à empresa e ao país.
Mas não é só nesse episódio da disparada do preço dos combustíveis que Bolsonaro age como promotor de uma crise que acaba abalando o seu governo. Na pandemia da Covid-19, ele também cometeu equívocos imperdoáveis ao tentar desacreditar as vacinas, ao combater o distanciamento social como medida de prevenção à proliferação do vírus e ao fazer propaganda e promover a distribuição de medicamentos ineficazes ao combate da doença, contrariando recomendação da Organização Mundial de Saúde.
Da mesma forma, no recente episódio dos assassinatos do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips o presidente da República demonstrou toda a sua falta de empatia com as vítimas, da mesma forma como agia – e ainda age – com relação aos mortos pela Covid-19 e suas famílias que nunca tiveram do presidente qualquer palavra de solidariedade. Bolsonaro chegou a insinuar que a culpa era das próprias vítimas, Bruno e Dom, que eram “malvistas” na região e que estariam participando de uma “aventura” e de uma “excursão”.
O presidente chegou a criticar uma decisão do ministro do STF Luís Roberto Barroso que determinava empenho do governo nas buscas dos desaparecidos, minimizando a importância do caso ao dizer que, no Brasil, mais de 60 mil pessoas desaparecem todos os anos. Um dia após a confirmação dos assassinatos, sem citar os nomes das vítimas, o presidente se limitou a dizer em nota: “Nossos sentimentos aos familiares”. Não é sem razão que a imagem do Brasil está sofrendo um desgaste considerável junto à opinião pública internacional, a ponto de a ONU cobrar das autoridades “investigações imparciais” sobre o crime.
Assim, de equívoco em equívoco, o presidente vai colecionando trombadas que o transformam em um trapalhão e no maior adversário do seu próprio governo.