Vírus de RNA, como os coronavírus, tipicamente têm taxas de mutações mais elevadas que os vírus de DNA. As mutações que conferem vantagens competitivas aos vírus geram variantes que se tornam predominantes por seleção natural. A primeira que se tornou conhecida foi uma substituição na posição 614 da glicoproteína da espícula. Esta mutação, conhecida por D614G, foi detectada em março de 2020 e associada à rápida disseminação e caos em Nova York.
No início de novembro, autoridades dinamarquesas reportaram uma mutação, Y453F, seguida de outras, também modificando proteína da espícula, em casos diagnosticados em fazendas de visons, com provável risco de menor resposta às vacinas, levando a abate de visons em larga escala. Em dezembro de 2020, uma nova variante, B.1.1.7, rapidamente se disseminou a partir do sudeste da Inglaterra. É possível que esta variante tenha sido responsável por diversos surtos na Europa, como, por exemplo, o quadro de elevado número de doentes e mortos em Portugal.
Uma explosão de casos na Califórnia (EUA) foi associada a outra variante, a CAL.20C. Uma variante parecida com a britânica foi descrita na África do Sul (B.1.351) e outra em Manaus, a P1, com provável grande responsabilidade pelo colapso do seu sistema de saúde. Mais recentemente, no final de janeiro, uma nova mutação foi identificada no Reino Unido, a E484K, chamada de “Erick”. Todas essas mutações se relacionam à proteína da espicula do vírus, a “chave” para entrada dos mesmos nas células e alvo da maioria dos ensaios de vacinas.
Obviamente, esse festival de variantes traz preocupações em relação à eficácia das vacinas desenhadas contra as cepas originais do vírus. A Pfizer e Moderna já divulgaram dados de eficácia contra a variante B.1.1.7; já a vacina da Janssen mostrou eficácia um pouco menor contra a variante sul-africana. Pesquisadores de Oxford mostraram eficácia de sua vacina, embora um pouco menor, contra a variante B.1.1.7, mas houve dúvidas em relação à variante sul-africana. É possível que as vacinas tenham que ser adaptadas às novas variantes, o que é factível, ou reforços devam ser programados..
Esses são desafios que trazem novas urgências: o Brasil precisa monitorar as variantes em seu território, sequenciando mais amostras de coronavírus. A variante P1 foi identificada no Japão de pessoas procedentes de Manaus, o que mostra como nossa vigilância genômica está falha! Também é necessária mais agilidade na vacinação. Quanto mais rápido vacinarmos, mais dificultamos os caminhos do vírus. Havendo menos pessoas susceptíveis, menor será a disseminação viral e mais baixa a chance de ocorrer diversidade.
Esta é mais uma das razões para essa vacinação ser pública e massiva.
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.