Após dois meses de intenso contágio, a maré de casos da variante Ômicron reflui aqui e em outros Estados brasileiros, de modo semelhante ao que ocorreu na África do Sul e na Europa. Tudo indica que teremos pela frente muitos meses de calmaria. Inúmeras pessoas perguntam: e agora? Vai ter outra variante? Acabou?
Passados dois longos anos de pandemia, algumas reflexões são necessárias. Recentemente, a Dinamarca, mesmo com avanço considerável de casos pela Ômicron, decidiu paradoxalmente suspender restrições e estimular volta à normalidade. Ao esmiuçar as razões dessa decisão, aquele governo justificou que mesmo com hospitalizações ainda altas, as mortes estavam em queda, e mesmo casos hospitalizados não eram graves.
País europeu com uma das maiores taxas de população vacinada com três doses (mais de 60%, enquanto no Brasil não chegamos a 30% no mesmo período), a Dinamarca entendeu que o preço a pagar, em especial na educação, estava alto demais, já que as pessoas com reforço tinham casos com menor letalidade.
É também intenso o desejo das pessoas de retomarem o convívio social, ver amigos, família, viajar. Após dois anos de restrições, é nítido que a saúde mental de muitas pessoas se deteriorou, com distúrbios e manias as mais diversas, e aumento de consumo de álcool e psicotrópicos.
O que é seguro fazer, doutor? Sinto que não temos resposta para tudo, vamos ter que ir descobrindo como conviver com o coronavírus. Seremos mais bem-sucedidos nesse caminho se conseguirmos furar a bolha do discurso binário, da ciência contra anti-ciência. A imunidade de rebanho pela doença ceifou vidas demais e não conferiu proteção à segunda onda em Manaus, no início do ano passado, em uma população na maioria contaminada na primeira onda.
Por outra lado, a imensa maioria das pessoas vacinadas com três doses tem doença leve e não precisa se assustar com risco de Covid e manter restrições duras na vida social. Restam os muito idosos e imunodeprimidos, que seguem vulneráveis mesmo com três doses, em especial após quatro meses da terceira dose. Como não há como isolá-los em uma bolha, serão necessárias doses mais frequentes ou uma nova vacina adaptada às novas variantes.