A pandemia de Covid-19 ceifou cerca de 15 milhões de vidas em todo o mundo, mais de um milhão delas nos EUA e cerca de 700 mil em nosso próprio país. O desenvolvimento rápido de vacinas foi um sucesso da ciência, possível pela cooperação de agências e institutos de pesquisa e um investimento maciço, um “caminhão de dinheiro”, no dizer de um pesquisador sênior americano.
Bilhões de doses foram distribuídas em todo o mundo e estima-se que cerca de 20 milhões de vidas foram salvas pelas vacinas. A distribuição foi desigual: mais de 80% a 90% dos habitantes dos países ricos receberam o esquema completo, comparados com menos de 15% dos habitantes da África.
As vacinas são bastante seguras, mas, como todo medicamento ou vacina, raros efeitos colaterais graves foram identificados. Ocorreram miocardites em jovens do sexo masculino com a vacina Pfizer e Moderna (esta não disponível no Brasil), em geral com recuperação completa. Mais temíveis foram os casos, muito raros, de trombose cerebral com plaquetas baixas, com as vacinas Aztrazeneca e Janssen, que ocorreram mais em mulheres jovens, vários casos fatais. Embora trombose e miocardite fossem muito mais frequentes pela própria Covid do que pelas vacinas, esses eventos raros foram muito amplificados nas redes sociais.
A contínua evolução de variantes do novo coronavírus fez com que a eficácia de anticorpos neutralizantes desenvolvidos pelas vacinas (imunidade humoral) se perdesse em semanas, mesmo com reforços, fazendo com que as vacinas deixassem de proteger contra novas infecções, ao contrário do que ocorre com muitas vacinas tradicionais contra outras doenças.
Por outro lado, a imunoproteção dada por linfócitos T (imunidade celular), também induzida pelas vacinas, mostrou-se eficaz contra formas graves causadas pelas novas variantes, prevenindo hospitalização e morte. Em pessoas idosas e imunocomprometidas, até mesmo essa proteção cai após 4-6 meses, forçando aplicação de novos reforços.
Na prática, no entanto, uma estratégia de reforços a cada 4-6 meses para pessoas mais vulneráveis não está se mostrando sustentável a longo prazo. A hesitação vacinal e a polarização intensa nas redes sociais têm criado uma “fadiga de reforço”, em que metade ou mais das pessoas vulneráveis pararam de se vacinar. Isso ajuda a explicar a mortalidade persistente causada pela Covid em países com vacinas disponíveis. Novas estratégias vacinais ou vacinas diferentes serão necessárias nessa nova fase em que a Covid-19 está se tornando endêmica.