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Doença

Varíola dos macacos levanta a questão: como evitar novas pandemias?

Um estudo histórico mostra que a humanidade nos últimos quatro séculos viveu surtos e epidemias sempre em consequência de episódios em que  agentes infecciosos originários de animais “saltam” para seres humanos que convivem próximos deles

Publicado em 02 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

02 jun 2022 às 02:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

lauropintoneto@gmail.com

O mundo assiste a surtos de novas doenças como a varíola dos macacos com apreensão. Em setembro de 2020, ainda sob impacto devastador da Covid-19, a OMS instalou um Painel Independente de Preparação e Resposta às Pandemias. Também o G20, grupo das 20 maiores economias do mundo, decidiu criar um fundo global com o mesmo objetivo.
Epidemiologistas que estudam esses fenômenos entendem que um fundo com 5 dólares pessoa/ano permitiria criar mecanismos de proteção. Uma estimativa de cerca de 20 bilhões de dólares/ano parece irrisória já que apenas os EUA gastaram mais de 7 trilhões de dólares na resposta à pandemia  até março de 2022.
Um estudo histórico mostra que a humanidade nos últimos quatro séculos viveu surtos e epidemias sempre em consequência de um fenômeno que os cientistas chamam de “spillover”, cuja tradução literal seria um transbordamento, ou seja, quando agentes infecciosos originários de animais “saltam” para seres humanos que convivem próximos deles.
Essa possibilidade só aumenta sempre que mudanças ambientais são desencadeadas por ações humanas. Hoje, segundo cientistas, esse risco é maior na África Central, no Sudeste Asiático e na região amazônica. Vários surtos de gripe graves neste século tiveram origem em “fazendas” enormes de criações de aves na Ásia, com condições de higiene precária. O uso, sem higiene adequada, de várias bebidas de seiva de tamareiras em Bangladesh levou a surtos de infecções fatais por vírus Nipah, ligado a morcegos.
Uma publicação na Nature, prestigiada revista científica, revela que quatro ações seriam necessárias para reduzir o risco de “spillover”: primeira, proteger as florestas tropicais e subtropicais, criando incentivos ao desenvolvimento sustentável de suas populações. Segunda, implementar regulação rigorosa do mercado de animais selvagens, banindo mesmo o comércio daqueles de maior risco para nós, humanos.
Terceira, implantação de medidas de biossegurança nas criações de animais, com melhor cuidado veterinário e com mecanismos de vigilância mais rigorosos, com quarentenas ágeis quando necessário. Quarta, em áreas de maior risco, cuidado no monitoramento de pessoas imunodeprimidas, que são as mais suscetíveis a doenças originárias de animais.
São ações factíveis que demandam cooperação de organismos internacionais e assistência financeira às economias mais frágeis, mas infinitamente mais baratas que os estragos econômicos e de vidas humanas das pandemias.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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