Vale a pena ver o filme “Quanto tempo o tempo tem”, disponível na Netflix, dirigido por Adriana Dutra e Walter Carvalho. O documentário utiliza os ciclos de diferentes sociedades para analisar a forma como lidamos com os dias, meses e anos, fazendo uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo, a civilização e o futuro da sociedade. Mas não é exatamente sobre cinema que eu gostaria de falar.
Vivemos um tempo em que tudo parece urgente na nossa rotina, no Brasil de 2023. E, no entanto, não vemos a mesma urgência na ação, no tempo certo e na velocidade necessária, para que as pessoas possam efetivamente melhorar de vida.
Crescemos ouvindo que o Brasil é o país do futuro, embora deitado eternamente em berço esplêndido. Não sairemos do berço? Não vamos crescer? O futuro nunca vai chegar ou está passando na nossa frente? Estamos aproveitando todo o potencial do país abençoado por Deus, cantado em verso e prosa, o país da alegria e do carnaval, ou não estaremos tão alegres?
Quarenta anos é muito ou pouco tempo? A China é uma nação com 4 mil anos de história. Em 2011 eles inauguraram a maior ponte do mundo, a ponte Qingdao Haiwan, com mais de 42,5 quilômetros de extensão. A obra levou 4 anos.
Quanto tempo dura uma obra pública no Brasil? Qual foi a grande obra estruturante do governo federal no Espírito Santo, pensando nos últimos 40 anos? Pois nesses 40 anos tivemos duas décadas perdidas. Enquanto o mundo avançou, nós ficamos estagnados.
Desde 1980, a renda per capita do Brasil despencou de 50º lugar para 85º, num ranking de 195 países, como mostra relatório do Fundo Monetário Internacional. Perdemos posições para países como China e Coreia do Sul e, pior, prognósticos do FMI indicam que continuaremos a cair, chegando 90º até 2026 – o estudo foi divulgado em 2021. Vamos assistir a esse tombo sem fazer nada?
O que temos feito de errado nas últimas décadas? Quem tem o poder efetivo de alterar o futuro do país? A resposta é uma só: os políticos que elegemos!
São os políticos os responsáveis ou somos nós que escolhemos mal? A resposta pouco importa, pois se confundem, mas é fato que os líderes que escolhemos nos últimos 40 anos não fizeram um bom trabalho!
Se fôssemos uma empresa, estávamos quebrados! Para o leitor que não é empresário, faço um breve relato: empresário quando não consegue pagar as suas contas, o banco negativa, o Estado multa por não pagar impostos, a Justiça executa, o patrimônio da empresa vai a leilão, o patrimônio do empresário é usado para pagar as dívidas, os executivos são taxados de incompetentes, não há rede de proteção! Ser empresário é um grande risco! Mas e aqueles que, em nome do povo, são os executivos da grande empresa BRASIL?
Não vamos generalizar, mas o fato é que tem faltado competência para enfrentar e resolver os problemas do país, embora a agenda necessária seja praticamente um consenso, de conhecimento público há uns 20 anos. Alguém questiona a necessidade da reforma tributária, para ficar somente num exemplo?
O tempo passa, e a cada dia que nossos executivos não tomam as decisões que precisam ser tomadas, milhões de brasileiros seguem sem atendimento digno na saúde, sem água e esgoto tratado, sem acesso à educação de qualidade, sem alimentação adequada. Esse é o preço da incúria administrativa no Brasil!
Neste momento estamos no início de um novo ciclo político. Estamos há quase 90 dias sem uma diretriz clara do que se pretende para o país!
Fala-se em urgência da reforma tributária, do combate à miséria, de carências da saúde e da educação, mas se é tão urgente assim, como é possível por exemplo encaixar uma viagem internacional à frente de uma decisão tão importante como a definição do novo arcabouço fiscal?
E a reforma tributária, não sai agora em abril ou maio? Por que decisões ideológicas se sobrepõem a soluções que resolveriam o a vergonha do saneamento básico atual ou da infraestrutura? Não está mais do que comprovada a ineficiência do Estado nesses setores?
Até quando vamos tolerar o tempo dessa política menor? Até quando vamos ter de tolerar representantes que só olham para eles próprios, para seus partidos, para seus interesses, ao invés de olhar para o interesse real da população?
O artigo de hoje tem talvez mais perguntas que respostas, para sugerir uma reflexão. Discursos são fáceis de fazer. Difícil é entregar o que é prometido. O ponteiro do relógio não para, não temos todo o tempo do mundo, e certamente não queremos ser o país do tempo perdido. Resta cobrar ação!