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Educação

Ensino sem conexão com o mercado: um jogo em que todos perdem

O resultado dessa equação é a perda de competitividade do país. Especialistas são unânimes ao afirmar que a deficiência de capital humano limita o crescimento econômico

Publicado em 09 de Junho de 2024 às 01:45

Públicado em 

09 jun 2024 às 01:45
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

leocastro@fibrasa.com.br

A consultoria paulista Geofusion, que trabalha com inteligência de mercado e atua em todo o país, divulgou dias atrás na imprensa um levantamento que comprova com números o que muitos de nós já percebe na prática: a vasta maioria dos estudantes formados nas faculdades não consegue emprego na área de graduação, enquanto as empresas vivem um apagão de mão de obra nas áreas em que precisam contratar. Ou seja, falta match entre nossas instituições de ensino e o mercado de trabalho.
Esse apagão de mão de obra acontece no ensino superior e também no ensino médio, inclusive já abordamos a questão neste espaço. O levantamento da Geofusion agora traz novos dados para que o país possa refletir sobre a sua política educacional. Os números mostram que somente um em cada dez recém-formados nas graduações mais procuradas consegue emprego e salário compatível com o curso.
Os cursos mais procurados são Pedagogia, Administração, Direito e Enfermagem. Já as empresas precisam de profissionais das áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, ou STEM, na sigla em inglês.
Para driblar as dificuldades, muitas empresas fazem como a CloudWalk, dona de maquininhas de pagamento: em entrevista ao jornal O Globo, ela revelou que ampliou sua equipe dedicada à inteligência artificial, abrindo vagas para profissionais, com trabalho 100% remoto, da África do Sul, Índia, Canadá e Bolívia, empregos que, obviamente, poderiam estar ocupados por brasileiros, se houvesse profissionais disponíveis.
Os números são nacionais, mas a situação se repete também no Espírito Santo. Um estudo divulgado pela própria Geofusion em janeiro passado focado no Estado mostrou que também aqui somente um em cada dez universitários consegue emprego e remuneração compatível com a formação, e a maioria acaba assumindo postos de ensino médio.
O dado positivo registrado na pesquisa nacional é que o percentual de brasileiros com formação superior mais que dobrou em uma década, chegando a 20% hoje. Mas há um evidente descompasso entre a formação desses alunos e as necessidades do mercado, resultando em frustração para milhões de jovens profissionais que não conseguem atuar em suas profissões.
Inteligência artificial tem revolucionado o ensino médio público capixaba e ensinado estudantes a escreverem melhor
Inteligência artificial  Crédito: Shutterstock
O resultado dessa equação é a perda de competitividade do país. Especialistas são unânimes ao afirmar que a deficiência de capital humano limita o crescimento econômico. A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) estima que no ano que vem o país terá um déficit de 532 mil profissionais em diferentes áreas tecnológicas – número impactado principalmente pela transição energética, que requer competências para lidar com a descarbonização da indústria. Já o professor Silvio Meira, do Porto Digital, referência em inovação no país, estima que esse número pode chegar a 1 milhão.
Dirigentes da Brasscom e demais especialistas têm defendido uma mobilização ampla unindo governo, instituições de ensino e setor privado, em favor de políticas públicas para formar mais profissionais na área de tecnologia e reduzir esse gap entre o que as instituições de ensino estão formando e o que o mercado realmente necessita.
Esse desencontro obviamente afeta o mercado de trabalho, do lado das empresas e dos trabalhadores, prejudicando a carreira dos jovens e a nossa produtividade e o crescimento econômico.
Também precisa entrar nesse debate o avanço do Novo Ensino Médio, aprovado inicialmente em 2017, mas submetido a uma reforma no Congresso, que foi aprovada em março pela Câmara dos Deputados e deve ir para o Senado, ainda sem previsão de conclusão na tramitação, o que é lamentável.
Já abordamos essa questão aqui: o Novo Ensino Médio é um modelo de aprendizagem por áreas de conhecimento que permite ao aluno optar por uma formação técnica e profissionalizante, aproximando-o do marcado profissional.
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que, no Brasil, apenas 9% dos alunos do ensino médio fazem um curso técnico ou de qualificação. Porém, de acordo com dados da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, na União Europeia esse índice é de 43%; no Chile, de 29%; e na Colômbia, de 24%.
A demanda do mercado é evidente. Sondagem feita pelo Senai e pelo Sesi com 1.001 executivos de indústrias mostrou que 75% afirmaram que os cursos profissionalizantes atendem mais às necessidades do mercado do que o próprio ensino superior. Levantamento do Observatório Nacional da Indústria, da CNI, indica que, somente nas áreas de logística e transporte, construção civil, vestuário e energia será necessário requalificar cerca de 2 milhões de trabalhadores já empregados e contratar outros 534 mil, até o fim do ano que vem.
Enquanto isso, nossas instituições de ensino formam profissionais para quê? As universidades federais inclusive estão em greve no momento. Como todos os demais mortais, também seus dirigentes precisam se reinventar, se aproximando do mercado, prestando serviços para as empresas na produção de pesquisas, por exemplo, ou mesmo levantando receita de outras formas, como sugeriu dias atrás o jornalista Carlos Alberto Sardenberg: cobrando mensalidade de quem pode pagar e cobrando estacionamento em seus vastos pátios. Seria mais realista e prático do que deixar as unidades sucateadas e sem aula, prejudicando os alunos – e o mercado.
Essa discussão de fato não deve ser feita de forma isolada, com universidades de um lado, setor privado de outro e o governo meio inerte, sem conseguir negociar uma solução de curto prazo, para a greve nas universidades, ou de longo prazo, como a reforma do ensino médio. Uma solução pactuada entre todos os setores envolvidos parece ser o melhor caminho. Esperamos que seja possível essa mobilização, com certa urgência. É o que o país precisa.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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