Há alguns meses mencionei neste espaço que o PIB capixaba está estagnado há uma década, com consequências negativas para toda a sociedade. Afinal, isso significa perda de competitividade e de oportunidades. Um levantamento do Ideies, instituto de estudos ligado à Findes, mostra que, em 2011, o Espírito Santo representava 2,4% do PIB nacional, sendo o 11º Estado da Federação nesse ranking. Em 2018, caímos para a 14ª posição, com participação de 2%. Isso num período em que o Brasil enfrentou um ciclo recessivo de 2014 a 2016.
Isso se reflete na população, naturalmente. O PIB per capita do Estado caiu de R$ 38 mil, em 2012, para R$ 31 mil, em 2020, uma perda de R$ 7 mil, segundo cálculos do IAE-Findes, o Indicador de Atividade Econômica medido pelo Ideies.
O fato é que, sem crescimento econômico, todos perdem. Precisamos reagir a essa estagnação com estratégias profissionalizadas e ambiciosas. Existem caminhos, como veremos a seguir, mas antes gostaria de destacar um movimento interessante que tenho percebido no mercado, na contramão dessa perda no PIB, e que pode indicar que, de certa forma, já começamos uma mudança.
O Brasil vive um momento de intensa atividade na área de M&A (Mergers and Acquisitions, ou Fusões e Aquisições). E as empresas capixabas estão participando intensamente dessa agenda.
Alguns exemplos: dias atrás a Pif Paf adquiriu a UniavesPif Paf adquiriu a Uniaves, indústria de alimentos sediada em Castelo. No fim de julho, a Ambipar anunciou a aquisição da ControlPar, holding de empresas da área ambiental. Em junho, o Grupo Fleury, de São Paulo, comprou os tradicionais laboratórios capixabas Pretti e Bioclínico. Ainda em 2018, a gestora norte-americana de fundos de private equity H.I.G. adquiriu o controle do grupo Meridional.
Players nacionais e globais como a Olam, Café Cacique, Britânia, Laticínios Porto Alegre, MadeiraMadeira, BRF, Marcopolo e vários outros têm anunciado investimentos no Estado. E empresas capixabas também estão expandindo sua atuação para além de nossas fronteiras. Temos citado exemplos como Laticínios Damare, Imetame, Guidoni, Autoglass, Vix, Wine e PicPay.
Esse cenário indica que grupos nacionais e internacionais estão começando a reconhecer no Espirito Santo um local atrativo para a alocação de investimentos, trazendo a esperança de voltarmos a ter um crescimento do PIB superior à média nacional.
Essa miscigenação empresarial é extremamente benéfica, não apenas pelas óbvias vantagens em termos de crescimento econômico e oportunidades de negócios, mas também pelo que ela representa para a oxigenação da cultura empresarial capixaba.
As fusões e aquisições nos conectam com grandes centros de decisão e nos ajudam a projetar o Estado mundo afora, com reflexos positivos para a nossa imagem e potencializando a atração de novos investidores, que provavelmente virão no rastro. Uma sociedade plural, com diversidade de pensamentos e culturas, é uma sociedade mais criativa e com maior potencial de evoluir.
O fato é que hoje precisamos cada vez mais atrair empresas e talentos de fora, para nos enriquecer em todos os sentidos, para estimular as nossas empresas a também romper fronteiras, expandir investimentos e realimentar essa diversidade, num ciclo virtuoso de geração de oportunidades.
ESTRATÉGIA DE POSICIONAMENTO
O Estado tem bons “ativos” para se vender no mercado nacional, mas, como mencionei no início, precisamos de uma estratégia ambiciosa, a ser executada de forma profissional, com perseverança.
Equilíbrio fiscal, estabilidade institucional, ambiente favorável aos negócios, localização geográfica privilegiada com proximidade com os grandes centros consumidores, educação pública e privada de qualidade, avanços nos indicadores de segurança e qualidade de vida são grandes vantagens competitivas, sim. Mas, se não tivermos boa capacidade de comunicação para vender essas vantagens, elas não serão percebidas e não terão tanto valor. Precisamos, em síntese, “cacarejar”.
Muitos Estados têm suas agências de atração de investimentos. São Paulo, que já é historicamente um imã natural de atração de investimentos, além de ter a sua agência, a InvestSP, ainda possui escritórios em Xangai e Dubai e neste ano vai abrir novas unidades na Alemanha, em Munique, e em Nova York.
A Findes, desde 2018, iniciou um trabalho em parceria com o Estado, a academia e o setor produtivo, e colocou de pé o plano Indústria 2035, um projeto de desenvolvimento de longo prazo, elencando os setores portadores de futuro e desenhando as rotas estratégicas, com o caminho das pedras para o crescimento de cada setor.
Esse plano é, sem dúvida, uma enorme contribuição que a Federação das Indústrias dá para que o Estado organize seus esforços, observando as suas vantagens competitivas.
Outra contribuição relevante é o IAN – Indicador de Ambiente de Negócio, que mede, relativiza e cria um banco de boas práticas para que os municípios possam se aprimorar na atração de investimentos. O IAN inclusive deverá ganhar um capitulo de marcos regulatórios (licenciamento ambiental, abertura de empresas, alvará de obras, pagar impostos, etc) em breve.
Desde 2017 a Findes vem pautando de forma clara e objetiva os nossos desafios nas áreas de infraestrutura, inovação e produtividade, e esse trabalho, quando compartilhado com os diversos atores da sociedade, tem conquistado avanços importantes.
Precisamos pegar trabalhos como esses, abraçá-los, ampliá-los e alinhá-los com as forças estaduais, com uma coordenação robusta, com métodos, metas, e capital humano para abrir o olho do Brasil e do mundo para as oportunidades e vantagens de investir no Espírito Santo.
Não tenho dúvida de que podemos mais, muito mais. Mas para isso precisamos ousar!