Reiteradas vezes, neste espaço, chamamos a atenção para a dificuldade das lideranças do país de enfrentarem os nossos problemas de forma definitiva, o que colocaria o Brasil em outra raia de desenvolvimento. Reiteradas vezes, mencionamos que, enquanto não houver uma percepção geral de que os objetivos do país têm de ser mais importantes, para quem está no Executivo, Judiciário e Legislativo, do que os objetivos pessoais, partidários e eleitorais, não vamos conseguir sair da agenda atual, marcada por voos de galinha, beirando a estagnação econômica.
Também já mencionamos o mal que tem feito ao país o instituto da reeleição, especialmente no Executivo. A liderança acaba aprisionada numa gaiola de ouro. O detentor do mandato fica refém da necessidade de aprovar medidas que garantam a sua reeleição no pleito seguinte, postergando decisões que precisam ser tomadas no país.
Essa dificuldade ocorre não só no Brasil, mas no mundo inteiro e mesmo na nossa vida pessoal: as medidas que são de fato transformadoras, que mudam o jogo, não são, num primeiro momento, bem compreendidas ou populares. A transformação nem sempre é fácil.
Quando o mandatário fica refém do julgamento de terceiros e dos índices de popularidade, as decisões acabam não sendo como deveriam. O Brasil infelizmente está nesse impasse há décadas, e no momento não vemos uma luz no fim do túnel. Com o agravante que vimos na semana passada, do avanço da desinformação, atingindo brasileiros de todas as classes sociais e levando a retrocessos em decisões que seriam de fato importantes para a sociedade.
Que medidas temos defendido ao longo do tempo? As reformas estruturantes. Fizemos algumas? Sim, mas temos avançado de forma tão lenta que elas parecem perder a validade em pouco tempo. A reforma da previdência de 2019 foi positiva, mas as despesas previdenciárias continuam subindo. O déficit da previdência é o principal item de despesa das contas federais e cresceu cerca de 20% no ano passado. Já precisamos de uma nova reforma no setor.
A reforma trabalhista vem sendo desfigurada por decisões judiciais. A reforma tributária é um alívio, mas não veio com a potência desejada e creio que todos concordam que também não é a reforma dos sonhos. É o que foi possível fazer após 30 anos de debate.
A reforma administrativa, que tornaria o gasto público mais equilibrado e eficiente, não foi levada adiante nem por um governo de direita, nem pelo de esquerda. Ninguém topou fazer esse enfrentamento de forma definitiva. Com isso, quem paga é o brasileiro, como sempre, que se ilude e se confunde com essa encenação do jogo do poder, como num circo.
O curioso é que muitas vezes admiramos medidas tomadas em outros países, mas localmente essas medidas não têm o mesmo apoio. Vemos agora o exemplo da Argentina, que está fazendo um enfrentamento brutal das despesas.
Ainda é cedo para avaliações definitivas, mas é possível perceber algum resultado. No primeiro ano de gestão, o governo argentino cortou gastos equivalentes a 6% do PIB e a inflação está em queda. Para efeitos de comparação: o ajuste fiscal do Brasil é de somente 0,3% do PIB.
Já o governo argentino promete uma reforma tributária para reduzir impostos e também reformas trabalhista, previdenciária e política. O PIB encolheu no ano passado, mas a projeção para este ano é de crescimento de 5%. Devido à boa relação entre os presidentes Milei e Trump, a Argentina também está costurando um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.
Também vemos as economias ditas liberais protegendo as suas indústrias, implementando programas bilionários para impulsioná-las, enquanto nós aqui achamos que isso é um pecado. São debates que precisamos enfrentar de forma consistente, não com discursos populistas e superficiais.
Precisamos de uma liderança, que não é o Lula, que não é o Bolsonaro, mas uma liderança mais arejada, moderna, séria, preparada e efetivamente comprometida com resultados. Temos, em alguns Estados, inclusive no Espírito Santo, governadores que pensam dessa forma e que demonstram como a gestão pública pode ser organizada de forma eficiente, em benefício da sociedade.
O Brasil teve crescimento econômico de 3,5% no ano passado, acima do esperado, é verdade, mas é verdade também que a curva está em declínio e os juros já estão subindo, podendo chegar a 15% no final deste ano. A inflação fechou ano passado acima da meta, e a única ferramenta que o país conhece para controlar esse cenário é a alta dos juros.
Recente reportagem do jornal Valor Econômico mostrou que o Brasil terá em 2025 um déficit nominal da ordem de 9% do PIB, um dos mais altos do mundo, bem acima dos países emergentes e desenvolvidos. O déficit nominal considera o resultado primário – as receitas menos as despesas – incluindo também os gastos com juros, que são absurdos. São eles que turbinam a dívida.
Assim, o brasileiro trabalha para bancar a banca. Viramos uma sociedade escrava do poder público inchado, ineficiente e caríssimo, e do sistema financeiro que, ano a após ano, influencia e opera para mantermos o título vergonhoso de maior taxa de juros do mundo. Vamos aceitar isso até quando? Esperamos que o país possa em breve encontrar uma nova liderança capaz de compreender essa realidade e virar esse jogo.