Para onde caminha o mundo? Que país deveríamos visitar hoje para ver de perto as tendências da indústria e da tecnologia que vão moldar as próximas décadas? Até o início do século, essa visão do futuro certamente viria dos Estados Unidos ou da Europa, de cidades como Boston, Nova York ou Londres. Hoje não mais.
Hoje o futuro está na China, em cidades como Xangai, Shenzhen e Pequim. E a guerra tarifária deflagrada pelos EUA tende apenas a piorar ainda mais a posição do Ocidente na corrida tecnológica, especialmente na inteligência artificial. Ao invés de proteger a indústria local, essa guerra pode sufocar cadeias globais de inovação e limitar o acesso a insumos estratégicos, como semicondutores, comprometendo a competitividade do Ocidente.
Justamente a respeito desse tema, o jornalista norte-americano Thomas Friedman, colunista do The New York Times, publicou no início do mês uma análise inquietante sobre o desenvolvimento da China em relação aos seus concorrentes ocidentais, especialmente os EUA: “Acabei de ver o futuro. Não estava na América”, é o título do artigo.
A viagem ao futuro começa no novo centro de pesquisas da Huawei em Xangai, um enorme complexo com 104 edifícios projetados individualmente, com laboratórios para até 35 mil cientistas chineses e estrangeiros, com atrativos como cafés, academias de ginástica e todo tipo de facilidade para atrair as melhores cabeças disponíveis.
A Huawei é uma gigante chinesa, líder global de soluções de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), e produz smartphones, wearables, PCs e tablets, entre outros. Curiosamente, o nome Huawei pode ser traduzido como "ato esplêndido" ou "a China é capaz". O grupo tem 207 mil funcionários e atua em mais de 170 países e regiões.
O campus em Xangai foi uma resposta da empresa à tentativa dos EUA de sufocá-la em 2019, com limitações à exportação de tecnologia dos EUA, incluindo semicondutores. Essa decisão provocou grandes perdas iniciais para a Huawei, que, com a ajuda do governo chinês, conseguiu dar a volta por cima. No ano passado, o seu lucro líquido mais que dobrou, marcando um retorno notável.
Um jornal de negócios da Coreia do Sul chegou a registrar recentemente: “A Huawei surpreendeu o mundo ao apresentar a série ‘Mate 60’, um smartphone equipado com semicondutores avançados, no ano passado, apesar das sanções dos EUA”. Ela também desenvolveu seu próprio sistema operacional móvel, o Hongmeng (ou harmonia, em português), para competir com o iOS da Apple e o Android do Google.
Como industrial que trabalha a vida inteira no setor de plástico, posso dizer que testemunhei essa transformação também na minha atividade. No fim de março participei em São Paulo da Feira Plástico Brasil 2025, a maior do setor na América Latina. Pude visitar vários fornecedores e potenciais fornecedores chineses de máquinas, moldes e equipamentos para a indústria de plástico, que não é exatamente uma indústria de alta tecnologia, mas está presente no mundo todo.
Posso dizer que é incrível o avanço dos fabricantes chineses nesse setor de máquinas de transformação de plástico, que sempre foi dominado pelos europeus, por países como Alemanha, Suíça e Áustria. Hoje a China emerge também como uma grande potência, ganhando espaço de forma espantosa, com custo menor, qualidade melhor e tecnologia cada vez mais avançada.
O futuro não é mais como era antigamente, diz uma canção de Renato Russo. A Times Square, em Nova York, com suas lojas, teatros e painéis luminosos, era a imagem da modernidade e do futuro algumas décadas atrás. Esse tempo passou.
O motor do mundo não está mais nos Estados Unidos e na Europa. Há uma questão de valores nesse debate, também. A China há milênios valoriza a meritocracia, o estudo, o trabalho, a família, a disciplina. Todos os anos, o país forma cerca de 3,5 milhões de pessoas graduadas em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, ou Stem, na sigla em inglês. Isso é mais ou menos o mesmo número de bacharelados, mestrados e doutorados em todas as disciplinas nos Estados Unidos.
Quando um profissional é excepcional, podemos dizer que ele é 1 em 1 milhão, certo? Se ele estiver na China, com uma população de 1,4 bilhão, há outros 1,4 mil no mesmo nível. Enquanto isso, a juventude na Europa parece desmotivada diante de uma civilização pronta, construída há séculos. Os trabalhadores rejeitam reformas e reivindicam carga horária menor. A jornada na França é de 35 horas.
Acabei de passar por Paris, a gente percebe a falta de ambição do país e uma juventude sem perspectiva. A França vive um processo de estagnação econômica, com o crescimento do PIB estimado em apenas 1,1% no ano passado, uma forte intervenção estatal no mercado interno e uma política protecionista que atinge especialmente o agro brasileiro.
É um país desconectado da agenda de tecnologia e inovação, habituado talvez às glórias do passado, com boa parte da população à espera do Estado para a solução de seus problemas.
No ano passado me encontrei em Lisboa com um amigo que havia sido CEO de uma grande empresa no Brasil e estava de volta à Europa. Perguntei o que era melhor, lá ou cá, e ele: “Tá maluco? Aqui na Europa ninguém quer mudar nada, as pessoas querem que fique tudo do jeito que está. Tô doido pra voltar pro Brasil, lá as pessoas querem fazer as coisas”. Sem aquele incômodo positivo que nos impulsiona para frente, corremos o risco de parar no tempo. Toda a garra da Europa parece ter ficado para trás, perdida há 400 anos, na época das grandes navegações.
O presidente dos EUA chamou de “Dia da Libertação” a data em que anunciou a elevação de tarifas comerciais para 180 países, deflagrando um processo de instabilidade e desconfiança global. A estratégia de libertação da China, pelo visto, é abrir mais centros de pesquisa como o da Huawei, dobrando a inovação orientada por IA, alcançando assim a libertação dos EUA e do Ocidente.
Penso que, para acompanhar as tendências globais e ter uma visão do futuro, os capixabas devem visitar a China. É para lá que o vento está soprando.