O Brasil vive hoje o maior ciclo de alta dos juros em mais de 20 anos, desde 1999, quando o país adotou o regime de metas de inflação. Esse aperto monetário começou em março do ano passado, e o pior é que o Banco Central sinaliza que a alta pode continuar, o que considero um grave equívoco. Não estou sozinho. Diversos economistas e empresários têm apontado exagero nessa política do BC.
A taxa básica de juros hoje está em 13,25% ao ano, um verdadeiro escândalo, um tiro no peito do empreendedor brasileiro. Em tese, o objetivo seria controlar a inflação, que está realmente alta. O IPCA acumulado em 12 meses está em 11,73%, bem acima da meta para este ano, que é de 3,5%.
Ocorre que a inflação que temos no Brasil hoje não é uma inflação de demanda, provocada pelo crescimento o consumo. A inflação está alta no mundo inteiro por fatores que escapam ao nosso controle, como a guerra da Ucrânia e os efeitos da pandemia, que desorganizou as cadeias produtivas globais, com forte impacto na indústria local.
A combinação de inflação e juros altos é explosiva. Prejudica todo mundo. Tira renda do trabalhador, inibe o consumo e a produção, desestimula o empreendedor a investir e incentiva a cultura da preguiça, fazendo prevalecer o rentista, ou seja, aquele que fica em casa, com o dinheiro rendendo no banco, sem empreender, sem investir e gerar empregos e riqueza, como deve acontecer numa sociedade capitalista.
O dinheiro que iria para investimentos portanto fica parado no banco, que por sua vez não aplica em atividade produtiva: o recurso acaba financiando o próprio Estado brasileiro, que sofre de um déficit crônico, limitando-se a pagar pessoal e custeio.
Estamos assim acumulando uma poupança que não gera valor para ninguém, num sistema bancário oligopolizado, dominado por meia dúzia de casas. O resultado desse modelo é a estagnação econômica. Sem investimentos, o país não cresce.
Precisamos com urgência romper com essa lógica e reverter a tendência de alta de juros, que penaliza a sociedade e não resolve o problema da inflação. Nota-se também que as cotações internacionais já indicam tendência de queda das commodities, como cobre e petróleo.
É verdade que a alta dos juros é observada também em outros países, mas com padrões bem diferentes. Uma coisa é um país com taxa de juros negativa ou de 0% fazer uma trajetória de alta e após 12 meses chegar a uma taxa básica de 2,5%, como os Estados Unidos. Outra bem diferente é atingirmos o patamar atual do Brasil, de 13,25%.
O drama brasileiro de juros excessivamente altos e abusivos é histórico. Recente estudo publicado pela Fiesp, intitulado “Custo Brasil na indústria de transformação”, mostra que a taxa real de juros entre os anos 2008 e 2019 no país foi 4,2 pontos percentuais maior do que a média dos nossos 15 maiores parceiros comerciais, entre eles Estados Unidos, China, Argentina e México.
Para piorar, o spread bancário (a diferença entre a taxa básica de juros da economia e a taxa “de balcão” tomada pelo empresário ou cidadão) é 10,2 vezes maior (isso mesmo, 10,2 vezes) do que a média dos nossos parceiros comerciais. Enquanto a média brasileira foi de 17,2% ao ano naquele período, a de nossos parceiros foi de 1,7%.
Somadas, essas assimetrias totalizam mais de 21% de sobrecarga para quem produz no Brasil e também para o cidadão, que se vê forçado a recorrer a linhas de crédito. Ou seja, são índices indecentes que minam a nossa competitividade e nossas oportunidades futuras.
Passou da hora de interrompermos essa tendência de alta, que só favorece o setor bancário, para reduzirmos os juros. Precisamos voltar a estimular o consumo e o investimento, para que o país possa gerar mais emprego, mais oportunidades e inclusive mais impostos, para retomarmos o crescimento econômico.