A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e a Ufes assinaram na semana passada um histórico acordo de cooperação técnica, para estimular o desenvolvimento da indústria e da educação no Espírito Santo, promovendo inovação, capacitação e pesquisa, fortalecendo a economia local e a geração de conhecimento no Estado.
Um marco a ser celebrado, sem dúvida. São duas instituições robustas, com décadas de notória contribuição para o desenvolvimento estadual, que sempre estiveram próximas e agora se unem formalmente num termo de cooperação, com prazo inicial de cinco anos, podendo ser renovado. É um grande passo para a economia capixaba, e sabemos que podemos avançar ainda mais no campo da inovação, especificamente.
A assinatura da cooperação técnica é oportuna para uma reflexão sobre o histórico recente do ecossistema de inovação capixaba, retomando a partir de 2017, quando a Findes, em parceria com demais organizações, propôs a criação da Mobilização Capixaba pela Inovação, uma ação conjunta de atores locais para fortalecer o ecossistema estadual do setor.
A MCI reúne a clássica hélice tríplice da inovação, com setor produtivo, governo do Estado e academia, contando com um inédito fundo próprio, o Funcitec, com recursos da indústria e do setor atacadista. A partir da MCI, inauguramos em setembro de 2019 o FindesLab, o hub de inovação da indústria capixaba, no alto da sede da Findes, na Reta da Penha, dando um novo significado ao espaço.
O FindesLab inspirou a criação de diversos novos hubs, como o Base 27 e os hubs de grandes organizações como o Grupo Águia Branca, a Arcelor, Suzano, Sicoob, Fecomércio e UVV. Na época, havia a visão pragmática de que inovação significa emitir nota fiscal nova: o objetivo da MCI era organizar o processo de inovação no Estado de forma a adicionar valor agregado e experiência à economia capixaba. Evoluímos muito, sem dúvida!
Mas penso que, em algum momento, de 2019 para cá, perdemos o foco e a visão pragmática sobre a inovação. A MCI não conseguiu estabelecer uma governança moderna e independente, aplicamos de forma dispersa e inadequada os recursos do Funcitec, e a construção do ecossistema cooperativo, com baixa redundância, e completo, não avançou. Há no mercado a percepção de que paramos no tempo, infelizmente. Precisamos rever a operação da MCI urgentemente.
Vemos com certa apreensão, por exemplo, a evolução do FIP Funses 1, o Fundo de Investimento em Participações gerido pela TM3 Capital, com recursos do Fundo Soberano do Espírito Santo. Em um ano e meio de caminhada, foram 17 startups beneficiadas, sendo 12 aceleradas com aportes médios de R$ 500 mil cada e 5 com investimentos superiores a R$ 2 milhões. Não constatamos ainda, contudo, a devida evolução e mesclagem dessas iniciativas com a cultura local.
Precisamos que esse recurso sirva para investir nas empresas de base tecnológica capixabas e também nas de fora do Espírito Santo, e neste caso atraindo o capital humano dessas investidas para se mesclar ao capixaba, criando assim um subproduto poderoso, que é a troca de conteúdo, de vivências, experiências, acessos e visão empreendedora.
Penso que é importante fazer essa reflexão, no momento do acordo histórico entre a Findes e a Ufes. Na ocasião da assinatura, a presidente da Findes, Cris Samorini, destacou a importância do evento: “Retomar essa construção de união com a academia me deixa muito satisfeita. Tudo que é lançado em termos de inovação e pesquisa, temos o setor industrial como maior impulsionador e consumidor. Para se ter ideia, 66,4% é a participação da indústria no investimento empresarial em Pesquisa e Desenvolvimento. Por isso, acreditamos que essa parceria dará muitos resultados”.
O acordo prevê iniciativas como apoio à realização de estudos e pesquisas em temas de interesse da indústria capixaba; projetos de Educação Profissional Técnica, de graduação, pós-graduação e extensão, voltados para o interesse da indústria capixaba, e compartilhamento de espaços físicos e acadêmicos para realizar atividades acadêmicas e realização de serviços para a indústria.
O professor e pesquisador Luciano Raizer, que foi vice-presidente da Findes e teve relevante contribuição na criação do FindesLab, destaca que o acordo formaliza uma parceria entre a Findes e a Ufes que, na prática, já existia. Agora, haverá mecanismos formais de interação, com um comitê estratégico presidido pelas duas maiores lideranças das instituições, a presidente Cris Samorini e o reitor Paulo Vargas, com o estabelecimento de diretrizes e monitoramento dos grandes objetivos dessa parceria.
O comitê gestor deverá se reunir a cada três meses para definir ações específicas e acompanhar os resultados. Esse acordo certamente renderá frutos importantes para o Espírito Santo.
Contudo, no momento em que damos esse grande passo, é fundamental que o Conselho Estratégico retome atenção à MCI, deixando de olhar projetos e iniciativas de forma isolada, para redefinirmos um norte, investindo em ações estruturantes para o futuro do Espírito Santo, focando, por exemplo, em transição energética, inteligência artificial e tecnologias habilitadoras da indústria 4.0. Para isso, é urgente a revisão da governança da Mobilização Capixaba pela Inovação. Esse deve ser o nosso foco, para que a inovação seja realmente prioridade no Espírito Santo.