120 anos: 1ª igreja evangélica de Vitória começou num barraco de zinco
Leonel Ximenes
120 anos: 1ª igreja evangélica de Vitória começou num barraco de zinco
Denominação religiosa tem cerca de 100 mil membros no Espírito Santo
Publicado em 13 de Setembro de 2023 às 03:11
Públicado em
13 set 2023 às 03:11
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Sede da Primeira Igreja Batista de Vitória, na Av. Beira-MarCrédito: Divulgação
Os batistas estão celebrando, oficialmente, 120 anos de atuação no Espírito Santo, evento que vai ser marcado por uma celebração festiva neste sábado (16), às 18h30, na Praça do Papa, em Vitória. A Igreja Batista foi, por assim dizer, a primeira igreja protestante, ou “dos crentes", como se dizia na época, a ser fincada na capital do Estado e uma das primeiras em solo capixaba.
Três igrejas batistas foram fundadas no Estado num intervalo de apenas 12 dias, no ano de 1903: em 21 de agosto, uma sexta-feira, foi a primeira, com 70 membros, em Ribeirão do Firme, então município de Afonso Cláudio, hoje Alto Firme, em Brejetuba.
No dia 23 do mesmo mês, um domingo, foi a vez da Igreja Batista de Figueira de Santa Joana, hoje Itarana, com 17 membros. E no dia 2 de setembro era criada a Primeira Igreja Batista de Vitória, com apenas 14 pessoas, numa casa (barraco) coberta de zinco no morro de Argolas, então pertencente à Capital.
O pioneirismo protestante no Estado, entretanto, é invocado pelos presbiterianos, que em 12 de outubro de 1902 dão por fundada sua primeira igreja no Espírito Santo, com a chegada do missionário Mathathias Gomes do Santos na “Vila do Alegre’, tendo a família de Manoel Soares Teixeira (ele, a mulher e nove filhos) como os primeiros crentes convertidos no Estado.
PIONEIRISMO EVANGÉLICO EM VITÓRIA
Se o pioneirismo em nível estadual pode ter essa contestação, na Capital não há o que questionar, porque os presbiterianos somente fundariam a Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória 25 anos depois da Batista.
Essa “disputa santa” entre presbiterianos e batistas tem antecedentes históricos no Brasil. Os presbiterianos surgiram no país em 1859, com o missionário Ashbel Green Simonton, nascido na Filadélfia. Os batistas remetem o seu surgimento em solo nacional a 1871, quando norte-americanos da colônia fincada em Santa Bárbara d' Oeste (SP) fundaram uma igreja batista. Porém, a primeira igreja batista para nacionais foi criada em 1882, em Salvador (BA).
E veio de Salvador o missionário que plantaria as três primeiras igrejas batistas no Espírito Santo, Zacarias Taylor, que aqui se juntou ao missionário Alberto Lafayette Dustan, de Campos (RJ), e foi ao encontro de Francisco José da Silva em Ribeirão do Firme, onde organizaram um concílio e ordenaram o primeiro pastor evangélico em território capixaba, o “pastor Chiquinho”. Dali, os três saíram para criar a segunda igreja, em Figueira de Santa Joana, e depois Vitória. Francisco ficou como pastor das três igrejas.
Com o crescimento da Capital, cresceu também a menor das três primeiras igrejas. Ao longo desses 120 anos, a Primeira Igreja Batista de Vitória mudou-se de casa cinco vezes. Em 1904, com a chegada do pastor norte-americano Loren Reno, passou a se reunir na casa de um diácono em Vitória e, depois, na casa do próprio pastor, na Avenida Schmidt até alugar um salão na Praça Marechal Hermes, na Cidade Alta.
TEMPOS DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
Eram tempos de intolerância religiosa e, certamente por isso, a reforma do salão era feita à noite e de portas fechadas, conta a história dos batistas.
Dali saiu para seu primeiro templo em 1909, na Rua General Osório, que foi apelidado de “Templo da Torrinha”. Neste foi organizada uma escola, que deu origem ao Colégio Americano Batista de Vitória. Houve uma segunda construção, na mesma rua, ocupada até 1976, quando mudou-se para a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, em 30 de outubro. Inicialmente, ocupou o prédio hoje destinado à Educação Cristã. O templo atual foi inaugurado em 1982.
Pastor Doronézio comanda a 1ª Igreja Batista de Vitória desde 2017Crédito: Divulgação
A Primeira Igreja Batista tem uma tradição de ministérios longevos de seus pastores e por elas passaram nomes muito conhecidos da denominação: Francisco José Da Silva (1903/1904), Loren Marion Reno (1904/1929), Almir Santos Gonçalves (1929/1946), Walter Kaschel (1946/1951), Alfredo Vianna Barbosa (1952), James Palmer Kirk (1953/1958), Nilson do Amaral Fanini (1958/1964), Samuel Cardoso Machado (1967/1991), Oliveira de Araújo (1992/2016) e, desde 8 de abril de 2017, a igreja é liderada pelo pastor Doronézio Pedro de Andrade.
OS NÚMEROSDA IGREJA BATISTA NO ES E NO BRASIL
Hoje, os batistas são mais de 100 mil no Espírito Santo, espalhados em 745 igrejas e congregações, contando-se apenas aquelas filiadas à Convenção Batista do Estado do Espírito Santo. No âmbito da Convenção Batista Brasileira, são mais de 1 milhão de batistas em mais de 10 mil igrejas em todo o território nacional.
Os batistas não estão entre as igrejas herdeiras diretas da Reforma Protestante, porém são considerados históricos, tendo iniciado sua jornada de fé no início do século XVII sob intensa perseguição do rei da Inglaterra por se constituírem em um grupo que não aceitava a autoridade eclesiástica do monarca através da Igreja Anglicana, até hoje a religião oficial britânica.
A primeira Igreja Batista do mundo nasceu na Holanda, em 1609, com o corpo de doutrinas que hoje é conhecido. A denominação ganhou grande impulso nos Estados Unidos, para onde muitos de seus seguidores migraram em busca da liberdade religiosa, que é um valor caro para a denominação.
Em 2020, segundo o pesquisador Sébastien Fath, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França, o movimento teria cerca de 170 milhões de fiéis em todo o mundo. A maior parte delas fazem parte da Aliança Batista Mundial, criada em 1905, , organização que reúne, livremente, centenas de convenções e associações que conservam os princípios batistas, com pouco mais de 51 milhões de membros.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.