9/6/2024: há 50 anos, um salto histórico no Espírito Santo
Leonel Ximenes
9/6/2024: há 50 anos, um salto histórico no Espírito Santo
Capixaba que saltou de paraquedas aos 13 anos de idade realizou o sonho de uma vida e hoje é piloto da aviação comercial
Publicado em 09 de Junho de 2024 às 03:11
Públicado em
09 jun 2024 às 03:11
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
A reportagem de A Gazeta, há 50 anos, sobre o salto histórico de Renan; na foto ao lado, ele com seu paraquedas acompanhado do irmão, WeberCrédito: Divulgação
Em 9 de junho de 1974, há exatos 50 anos, o então adolescente Renan Campos Vitral, com apenas 13 anos recém-completados, realizou um sonho e fez história no paraquedismo capixaba e nacional.
Desde a antiguidade o céu e o desejo de voar sempre povoaram o imaginário e a fantasia da maioria das pessoas, desde crianças a adultos. Mas algumas parecem ter uma relação diferente com os ares, uma genuína paixão.
É o caso de Renan, que há meio século realizou o seu grande sonho de menino. Quando ainda estava com 12 anos, em abril de 1974, ele viu um anúncio do clube de paraquedismo, e após conversar com os seus pais, estes concordaram em levá-lo para conhecer o Aeroclube do Espírito Santo, que na época ficava no bairro da Glória, em Vila Velha.
Renan e seus pais, Leda e Waldir Vitral, após o primeiro saltoCrédito: Divulgação
Chegando lá, se encantou com a atmosfera do aeroclube e pediu aos pais que autorizassem a realização do curso. Após concluídos todos os treinamentos teóricos e práticos, Renan diz que ninguém acreditava que ele realmente iria saltar. Na verdade, nem ele próprio acreditava que iria conseguir fazer o salto.
"Quando chegou a hora do primeiro salto ninguém acreditava que eu fosse saltar. Acho que nem mesmo eu acreditava. Mas eu fiz e passei a continuar saltando aos fins de semana. Nesta época, como eu era muito jovem, as pessoas tinham um carinho e uma dedicação especial comigo pela minha idade"
Renan Campos Vitral - Sobre a emoção do primeiro salto
“Quando chegou a hora do primeiro salto ninguém acreditava que eu fosse saltar. Acho que nem mesmo eu acreditava. Mas eu fiz e passei a continuar saltando aos fins de semana. Nesta época, como eu era muito jovem, as pessoas tinham um carinho e uma dedicação especial comigo pela minha idade”
O piloto Renan no comando do Embraer E195 da AzulCrédito: Divulgação
Enfim, chegou o tão esperado final de semana, e superando todos os medos e desconfianças, Renan concretizou aos 13 anos o seu grande sonho realizando um salto autônomo, sozinho, de paraquedas. E assim tornou-se um recordista: o paraquedista mais jovem da história do Espírito Santo.
“No início meus pais ficaram um pouco temerosos, mas me levaram ao Aeroclube da Glória. Depois eles me autorizaram a fazer o curso de paraquedismo, que durou aproximadamente um mês, com aulas durante a noite e no final de semana tinha aulas práticas”, lembra Renan.
Após este feito, Renan tornou-se praticante assíduo do esporte, e o aeroclube se transformou em sua segunda casa aos finais de semana. Como era o mais jovem da turma, Renan lembra que foi acolhido com atenção e um cuidado especial por todos do clube, onde fez muitos amigos. A partir daí, passou a saltar em torneios e eventos festivos com os demais paraquedistas do aeroclube, inclusive no interior do ES, permanecendo no esporte até os 17 anos.
Na época, esta história foi registrada em uma reportagem de página inteira do jornal A Gazeta, que descreveu a preocupação e as cautelas médicas de seus pais antes de autorizarem a estreia do filho neste esporte.
Segundo familiares de Renan, há claros indícios de que ela seja o paraquedista mais jovem da história nacional e bem provavelmente da América Latina, e um dos mais jovens da história mundial. Não existem registros, mesmo em pesquisas na internet, de alguém que tenha feito um salto, sozinho, em idade inferior a 13 anos.
Renan em um avião na Embraer, em meados dos anos 1980Crédito: Divulgação
Somente existem informações de crianças mais jovens em saltos duplos, presos a um instrutor. Além disso, com o passar do tempo as confederações de paraquedismo foram criando regras de segurança e idade mínima mais restritivas.
Renan diz que o seu objetivo não era ser um recordista. Ressalta que estava movido unicamente pelo desejo de realizar um sonho, concretizado com bastante treino e segurança, para se tornar praticante do paraquedismo.
O ADULTO PILOTO DE AVIÃO
Mas este marcante salto foi apenas o início de uma vida inteira dedicada à aviação. Hoje com 63 anos de idade, casado, pai de dois filhos e avô coruja, Renan é um experiente piloto, comandante da Azul Linhas Aéreas.
Assim como no paraquedismo, também iniciou-se cedo na aviação. Logo quando parou de saltar, aos 17 anos, em 1978, mudou-se para São José dos Campos, no interior de São Paulo, e apesar de todas as dificuldades enfrentadas em uma época muito diferente da de hoje, conseguiu tirar o brevê (documento que dá ao seu titular a permissão para pilotar aviões) de piloto.
O seu primeiro emprego foi na mundialmente famosa Embraer, onde trabalhou por mais de 10 anos. Lá ele participou do desenvolvimento do primeiro modelo do Tucano, que ao longo dos anos evoluiu até o modelo atual, o Super Tucano, que é um dos mais aviões de treinamento militar mais utilizados no mundo.
"“Parei de saltar aos 17 anos de idade e, como consequência natural, passei a me interessar por aviação e a partir daí comecei a fazer o curso de piloto e tirei o breve por por volta dos 18, 19 anos. Aos 20 anos consegui meu primeiro emprego como profissional da aviação, na Embraer”"
Renan - Sobre a transição do paraquedismo para a aviação comercial
“Parei de saltar aos 17 anos de idade e, como consequência natural, passei a me interessar por aviação e a partir daí comecei a fazer o curso de piloto e tirei o breve por por volta dos 18, 19 anos. Aos 20 anos consegui meu primeiro emprego como profissional da aviação, na Embraer”
O MAIOR DRAMA DA CARREIRA
Nos anos 1990, Renan ingressou na aviação comercial e também na aviação executiva. Em 2007, enfrentou uma das situações mais difíceis em sua carreira: foi a mais testemunha ocular mais próxima do trágico acidente do vôo JJ 3054, que ocorreu no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Na ocasião, Renan era piloto executivo e estava em procedimento de decolagem, exatamente ao mesmo tempo em que pousava, na outra pista paralela, o avião do vôo JJ 3054 com 186 pessoas a bordo. Era uma noite chuvosa, e sem poder desconcentrar da decolagem que estava em vias de realizar, Renan viu aquela aeronave atravessar a pista ao seu lado e se chocar com o prédio próximo à cabeceira da pista.
O piloto capixaba chegou a receber o comando da torre de controle para abortar a decolagem, mas o seu avião já estava em alta velocidade e seria impossível parar a sua aeronave sem se acidentar. Com habilidade, e seguindo protocolos de segurança em situações críticas, conseguiu fazer a decolagem ao lado da explosão que se formou próxima à cabeceira da pista, evitando que aquela tragédia fosse maior.
Voo de produção da Embraer: Renan é o quarto da esquerda para direitaCrédito: Divulgação
Por ironia do destino, hoje como comandante da Azul, Renan pilota o maior e mais moderno avião comercial fabricado pela Embraer, empresa onde iniciou sua carreira e onde deixou sua parcela de contribuição. Trata-se do concorrido modelo E195 E2, que tem tudo o que há de mais moderno em tecnologia da aviação e é amplamente utilizado pelas companhias aéreas mundo afora.
"Sou muito grato aos meus pais por terem me levado ao paraquedismo e incentivado depois no curso de piloto. Hoje me considero uma pessoa e um profissional realizado porque consegui viver aquilo que eu gosto e me faz bem"
Renan - Sobre o sentimento de eterna gratidão aos pais
Dentre tantas outras tantas histórias e experiências, a partir deste marcante salto de paraquedas Renan transformou sua paixão pelo céu em uma bela história de superação, e relata que hoje se considera uma pessoa e um profissional realizado, por ter vivido aquele que era o seu sonho de infância e que acabou se tornando sua profissão. Por isso, expressa muita gratidão aos seus pais, já falecidos.
Com sua história, Renan traz um exemplo de perseverança e de que vale a pena acreditar que nossas paixões podem andar de mãos dadas com nossas vocações. “Não tive um sonho de infância, na realidade eu vivi uma coisa bacana durante minha infância e pré-adolescência, e isso acabou se tornando minha profissão”, diz o piloto.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.