Eles estão chegando de
Minas e, mais cedo ou mais tarde, vão invadir as nossas praias. Desconhecem fronteiras entre países, divisas entre Estados e limites entre municípios. Andam em bandos e costumam ser agressivos, podendo até machucar pessoas.
O alerta é da secretária municipal de Meio Ambiente de
Barra de São Francisco, Lislei Batista, e não tem nenhuma relação com os mineiros de boa paz que vêm curtir nossas praias no verão. Estes, são sempre bem-vindos. A secretária está falando de um “mineiro” que anda solto pelo Estado vizinho e vai chegar ao
Espírito Santo: os javalis e javaporcos, que são animais híbridos, resultado do cruzamento de javalis com porcos domésticos.
“Não há motivo para pânico, eles podem chegar logo ou daqui a um ano, mas o certo é que eles vão acabar chegando por aqui, segundo os agentes do Ibama de Minas Gerais”, destacou Lislei em entrevista ao site regional Tribuna Norte Leste.
O conselho da secretária é que, se alguém avistar um desses animais, não deve se aproximar deles, pois eles tornaram-se asselvajados (rudes), andam em bandos e atacam o que lhes ameaça, podendo ferir pessoas. Ela disponibilizou dois telefones para que haja comunicação de alguma ocorrência de presença desses animais: (27) 3756-7287 / (27) 99575-6838.
O alerta também foi dado por agentes do Ibama, que estão percorrendo municípios que fazem divisa com Minas Gerais para alertar para a possibilidade de aparição desses animais que entraram em território mineiro na região do Triângulo e já foram vistos na região metropolitana de
Belo Horizonte. Eles estão se deslocando e procuram regiões onde possam se locomover com menor esforço.
Como existe uma grande baixada no Vale do Rio Doce, os técnicos afirmam que eles possam gostar da região e daí atravessar a Serra dos Aimorés utilizando os vales entre montes. Outra área de risco é o Parque Nacional do Caparaó, na divisa entre os dois Estados. No início de setembro, agentes do Ibama apreenderam 30 desses animais em Morro do Pilar e Santana do Riacho e mantêm constante vigilância sobre a Serra do Cipó, na região Central de Minas.
Desde 2018, o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) está buscando informações para verificar a presença de javalis e/ou suínos asselvajados no Estado. Esses dados visam subsidiar o órgão na implantação do programa de acompanhamento das ações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no que se refere ao Plano Nacional do Javali.
Os javalis são exóticos. Em 1989, porcos selvagens entraram no Brasil, vindos do Uruguai, por Jaguarão (RS). Depois disso, nos anos 1990, javalis foram importados da
Europa e do Canadá por produtores de suínos, que viram na carne nobre, altamente proteica e com baixo teor de gordura, um excelente negócio.
Entretanto, os bichos escaparam e se tornaram uma praga em boa parte do território nacional. Na mesa, são deliciosos; soltos na natureza, um problema. Em Minas Gerais, segundo o Ibama, são quase 200 municípios com registro do animal, sendo que 64 deles estão classificados com prioridade extremamente alta para a prevenção, no aspecto ambiental. Essas regiões apresentam áreas com flora e fauna mais sensíveis e espécies endêmicas ou ameaçadas de extinção.
Até bem próximo da capital mineira o suíno já foi encontrado. Pedro Leopoldo, na Grande BH, já registrou o abate de um animal, que está se reproduzindo de forma descontrolada por não ter predadores naturais no país. Esses bichos trazem problemas relativos ao assoreamento de nascentes, pisoteamento de culturas e até ataques a outros animais e pessoas. A maior preocupação, porém, talvez seja a possibilidade de volta da Peste Suína Clássica (PSC), segundo a secretária Lislei Batista.
O crescimento descontrolado dos javalis levou o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) a ensinar aos caçadores legalizados técnicas de coleta e encaminhamento de amostras de sangue para que seja possível monitorar problemas sanitários que tragam risco à pecuária. O órgão é executor da defesa sanitária animal em Minas e realiza treinamento sobre vigilância sorológica para Peste Suína Clássica.
Segundo a coordenadora de Sanidade Suína do IMA, Júnia Mafra, além da PSC, o javali pode transmitir outras doenças, inclusive para o ser humano. “Os javalis são animais asselvajados que colocam em risco fauna, flora e seres humanos. Hoje somos uma área livre da PSC e os Estados vizinhos também são. Essa é uma barreira importante, mas não podemos diminuir a vigilância. Uma volta da doença não é provável, mas, se isso acontecer, teremos problemas para exportar. Minas é o quarto maior rebanho suíno do Brasil”, explica Júnia.
O predador natural do javali e seu filho bastardo, o javaporco, é o lobo cinzento, que não existe no
Brasil. Talvez a onça pudesse ser uma alternativa para promover o equilíbrio ecológico e controlar a proliferação desses animais, que não são nada bobos e não vão para territórios onde os felinos estão. E, pelo que se sabe, não tem ninguém criando onça no quintal aqui no Espírito Santo. Então, o melhor é ficar de olho e, se alguém avistar um desses animais, deve avisar à Polícia Ambiental ou outra autoridade da área.