Fã de Fernando Pessoa, o aposentado José Sales Filho, de 69 anos, seguirá à risca uma das máximas do poeta português: já que navegar é preciso, ele vai se lançar ao mar navegando pelo
Brasil e pelo mundo.
Mas, para alcançar os mares mais remotos, esse cearense radicado no Espírito Santo e morador de Vitória, onde chegou em 1978 para assumir a gerência de vendas da Transbrasil, resolveu abrir mão do seu maior patrimônio: ele acaba de colocar à venda sua mansão no Morro do Moreno, em
Vila Velha, por R$ 3,950 milhões.
Com o dinheiro que pretende arrecadar, Sales inicialmente quer comprar um veleiro nacional de segunda mão, no valor de R$ 300 mil, para navegar pela costa brasileira por cerca de dois anos. Cumprida essa missão, ele se lançará em águas mais profundas.
O executivo aposentado da antiga TAM e ex-
secretário estadual de Turismo planeja depois comprar o mesmo tipo de embarcação nos EUA, também usada, mas um pouco maior, mais potente e mais cara (R$ 700 mil), para singrar os mares do Caribe e dos Estados Unidos, atravessar o Atlântico e chegar ao Mediterrâneo.
Esta saga não tem duração planejada, mas, segundo gosta de brincar, ele velejará no máximo até 2053, quando completará 100 anos de idade.
José Sales já vendeu seu pequeno veleiro, o Catimba, que comprou com sua mulher, a capixaba Fernanda Conde Vescovi. O próximo barco será batizado com o nome da pequena cidade do interior do
Ceará onde nasceu, Cariús.
Para atravessar o oceano, o aposentado, que já tem o curso de mestre amador, está se preparando para receber o título de capitão amador, patente que irá adquirir por meio de uma prova que fará na Marinha em outubro próximo. E ele tomou outra decisão simples, mas providencial: um curso para aprender a nadar. Marinheiro prevenido que é, melhor não arriscar, certo?
“Quando morei em Nova York, nos anos 1990, comprei um veleirinho e sempre quis velejar. Já nos anos 2000, quando voltei a morar nos EUA, agora com a TAM, velejava bastante com os amigos que tinham veleiro. Eu tinha a grana para comprar a embarcação, mas não tinha tempo”, recorda o ex-executivo, que vai navegar nos próximos quatro a seis anos em companhia da mulher, também velejadora e entusiasta da ideia.
Sales tem natureza inquieta e encanta seus amigos pela simpatia e vivacidade. Depois de aposentado, graduou-se em Filosofia na
Ufes, em seguida fez o mestrado na mesma universidade e agora se prepara para fazer doutorado em uma instituição que ainda vai escolher.
Seu objeto de estudo será Espinosa, filósofo do qual é fã e do qual tem extensa bibliografia. Alguns desses livros foram escritos por outra admiradora de José Sales, Marilena Chauí, a maior autoridade do Brasil no pensador racionalista holandês.
O ex-executivo, como registrou a coluna em 2015, ficou conhecido em todo o Estado por sair de casa, no Morro do Moreno, para estudar e trabalhar na Capital a bordo de um simples caiaque, o meio de transporte que utilizava para atravessar a Baía de Vitória.
A bem dizer, a casa do Morro do Moreno na realidade é uma bela mansão projetada com arrojo e bom-gosto. Localizada de frente para a
Baía de Vitória, o imóvel de 421 metros quadrados (área total de 600 metros quadrados) tem todo o conforto da vida moderna, mas um item em especial, uma relíquia, chamou a atenção no anúncio que Sales publicou informalmente nas redes sociais. Trata-se de uma porta de madeira cabreúva, de 200 anos presumivelmente, proveniente da demolição de um casarão da Avenida Paulista, em São Paulo.
E um aviso ao futuro proprietário do imóvel: como bom filósofo e adepto dos valores humanistas, o executivo tem em seu casarão um belo espaço reservado para uma fornida biblioteca.
Afinal, na casa de um filósofo predominam as luzes. E a luz.