Temos um sistema eleitoral e de saúde pública melhor que o dos EUA. E devemos nos orgulhar disso
Publicado em 04 de Novembro de 2020 às 19:54
Públicado em
04 nov 2020 às 19:54
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
SUS e urnas eletrônicas: motivos de orgulhoCrédito: Amarildo
A expressão ficou imortalizada na verve de Nelson Rodrigues, que insistia na tese de que o brasileiro sofria do “complexo de vira-lata”, caracterizado por um comportamento servil, vacilante e sem autoestima. E que só foi rompido quando a seleção canarinho conquistou seu primeiro Mundial de Futebol, em 1958, na Suécia. Antes, andávamos de cabeça baixa, marcados que estávamos pela humilhação suprema diante do Uruguai, em 1950, quando perdemos o Mundial em casa, no Maracanazo de triste memória.
Que o prezado leitor não pense que este é um texto sobre futebol. Não, mas a analogia com o esporte mais popular do mundo foi necessária para a gente refletir um pouco sobre o Brasil, o brasileiro e o julgamento que fazemos de nós mesmos.
Dois acontecimentos em curso vão servir sob medida para que a gente seja um pouco mais realista e generoso na hora de avaliar a nossa índole, as nossas instituições, o nosso destino como Nação. Nada melhor que comparar. E que tal fazer isso com os Estados Unidos, a nação mais poderosa do mundo?
Comecemos por analisar nosso processo eleitoral diante do norte-americano. A democracia brasileira não é perfeita, obviamente, mas onde ela é? Essa imperfeição, entretanto, não nos deve impedir de bater no peito e nos orgulhar, por exemplo, das nossas eleições, que estão sendo realizadas de forma contínua e regular desde o fim da ditadura militar, em 1985.
No Brasil o voto é universal, republicano (um eleitor, um voto) e livre. Embora ainda seja obrigatório (já passou da hora de ser facultativo), as eleições transcorrem de forma pacífica, em geral, e a apuração dos votos é exemplar e serve de modelo para vários países.
Diferentemente dos EUA, em que ainda estão de pé regras eleitorais do século XVIII, a votação no Brasil é eletrônica, assim como a apuração, que é rápida e eficiente. Em cerca de uma hora depois de fechadas as urnas, o eleitor já sabe quem ganhou, quem perdeu, como ficará a composição de governos e casas legislativas - e tudo com muita segurança - não obstante a subsistência de teorias de conspiração.
Segurança, por sinal, garantida por uma Justiça Eleitoral competente, profissional, isenta e com regras universais. Aqui, a legislação que rege o pleito é nacional, e não um emaranhado de regras eleitorais adotadas por cada Estado da Federação, gerando insegurança e anarquia.
E na terra do Tio Sam? Que vexame, gente! Mais uma vez o processo eleitoral americano é motivo de espanto e escárnio no mundo todo. O sistema, arcaico e inseguro, dá azo a acusações de fraudes, manipulações, desvios, erodindo aos poucos o sólido edifício no qual se funda a democracia americana.
E as distorções no sistema de representação e escolha do presidente da República? Naquele país, a proporcionalidade não é respeitada. Se um candidato ganhar a eleição por apenas um voto, ele leva todos os votos daquela unidade da Federação no Colégio Eleitoral que vai escolher o novo mandatário da Casa Branca. Isso mesmo: milhões de eleitores são simplesmente ignorados desprezados. E a soberania popular, onde fica?
É por isso que nos EUA acontece uma situação bizarra: um candidato a presidente tem milhões de votos a mais do que seu oponente, mas, por causa de uma regra caduca e sem sentido, ele acaba perdendo a eleição para o adversário derrotado no voto popular.
Aconteceu isso na eleição passada, em 2016: Hillary teve quase 3 milhões de votos a mais que Trump. Por incrível que pareça, ela ganhou, mas não levou. Neste ano, ao que tudo indica, o democrata Biden, que tem mais votos populares que o republicano, deve ser o ganhador também no número de iluminados, ou melhor, de delegados.
Mas não é só o nosso sistema eleitoral, incluindo a apuração, que é do século XXI, mais de 200 anos à frente do sistema americano. Até na pandemia de Covid o Brasil mostrou muitos méritos em relação aos EUA, não obstante o presidente Bolsonaro ter um comportamento que, na prática, chegou a desestabilizar o combate à Covid-19 no país - neste ponto, tentando imitar seu colega Trump, um negacionista e sabotador das medidas de isolamento social contra a doença em seu próprio país.
Na terra de Trump não há um sistema universal e público de saúde, o que dificultou o combate ao coronavírus - o país é recordista em casos (9,5 milhões), quase um quinto de todo o planeta, e óbitos (233 mil) no mundo. Milhões de americanos se viram aflitos por não terem um seguro privado de saúde, caríssimo, e nem acesso ao sistema de saúde pública, que lá é limitado e restrito.
E no Brasil? Com todas as debilidades já conhecidas (e não são poucas), temos o SUS, o Sistema Único de Saúde, que assiste indistintamente todos os 210 milhões de brasileiros. Pois foi esse SUS a que recorreram milhões de pessoas acometidas pela terrível doença.
Aqui também estão sendo registrados muitos casos (quase 5,6 milhões) e muitas mortes (161 mil), mas é inegável que se não fosse o sistema público de saúde, a tragédia seria muito maior. Claro que a iniciativa privada pode e deve atuar no sistema de Saúde, mas é imprescindível termos um robusto e eficiente sistema de saúde pública.
Diante desses dois exemplos importantes, é preciso que nós, brasileiros, deixemos de lado a falta de autoestima e aquela mania de elogiar o que vem de fora, em detrimento das coisas que são feitas aqui. Ante à maior potência do mundo, somos superiores na hora de votar, apurar e até na hora de procurar um socorro médico público. Sejamos amigos, solidários e fiéis como os vira-latas - mas sem abaixar a cauda e as orelhas.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.