A sensação de terror de ficar preso, durante nove dias, na perigosa fronteira dos Estados Unidos com o México, terminou de uma forma quase simbólica para o capixaba Gilberto Brito Félix, morador de
Barra de São Francisco: ele comeu seis pastéis, logo depois de desembarcar com a mulher e o filho, que junto com ele foram deportados pelos EUA.
“Quando cheguei no Aeroporto de
Belo Horizonte e saí dele, a primeira coisa que fiz foi comer pastéis. Comi uns seis”, calcula Gilberto, de 38 anos, em relato ao jornalista Weber Andrade, do site Tribuna Leste-Norte, de Barra de São Francisco.
Mais aliviado, o pequeno produtor rural agora tem tempo para sorrir e relembrar o sufoco que passou após tentar entrar nos Estados Unidos, onde planejava trabalhar para dar uma vida mais confortável à sua família.
Operador de motosserra e dono de um pequeno pedaço de terra na localidade de Córrego das Pedras, em Cachoeirinha do Itaúnas, Gilberto conta que ao chegar ao México, com a mulher e seu filho de 11 anos, teve que viajar de ônibus durante um dia inteiro, e com baldeações, rumo à fronteira com os
EUA.
Eles conseguiram atravessar a fronteira, por um rio, perto da cidade de Tijuana, no México, mas a partir daí as coisas começaram a dar errado. Orientado por um coiote (criminosos que vendem a travessia ilegal por dezenas de milhares de dólares), o emigrante capixaba entregou-se às autoridades de imigração norte-americanas, no esquema conhecido como cai-cai, quando a pessoa é liberada para responder ao processo em liberdade condicional ou quando o imigrante fica detido à espera da deportação.
Gilberto Félix foi detido e levado para um centro de detenção de imigrantes a cerca de 10 quilômetros da fronteira com o México. O inferno da família de capixabas não começou aí, mas aumentou.
“Lá no México não passei
fome, mas os mexicanos são maus”, constatou o francisquense. “Só que quando fui para a fronteira com os Estados Unidos, aí sim, passei fome.
Gilberto conta que a crise econômica do Brasil, as dificuldades de produzir no campo e a vontade de dar uma vida melhor para a mulher e o filho o levaram a querer deixar tudo e morar em outro país. Segundo ele, viver nos EUA traz essas possibilidades. "Apesar do salário lá ser em torno de 15 a 20 dólares (por hora), a gente também gasta em dólar, então tem que trabalhar muito e economizar para juntar dinheiro", alerta.
Mesmo tendo propriedade rural e profissão, e apesar de ter passado tanto sufoco ao tentar ingressar nos EUA, Gilberto continua firme na sua decisão de deixar o Brasil. E, surpreendentemente, avisa que vai “tentar de novo” a imigração ilegal para aquele país.
“Eu investi muito, só ao coiote paguei mais de R$ 120 mil, mas aqui não tenho como recuperar. Agora vou tentar de novo, vou pagar de novo e acho que desta vez vou conseguir ficar lá”, afirma o capixaba. Mas ele tem um conselho para quem tem dinheiro: “É melhor ficar no Brasil”.