Nos tempos em que
Guaçuí era apenas Veado, uma vila do município de Alegre, eis que um grupo de rapazes resolveu inovar e concorrer com a sede do município, que havia acabado de ganhar um clube de futebol. Foi assim que nasceu, em 24 de novembro de 1917, o União Veadense Foot-Ball Club e Sociedade Esportiva, com bandeira nas cores alvirrubras.
Dentre os fundadores, e um dos seus primeiros jogadores, o popular Chiquinho, ou Dr. Francisco Lacerda de Aguiar, nascido em São José do Calçado, na Fazenda Castelo, mas filho de aristocrática família paulista que migrou para a região para plantar café e produzir leite. Chiquinho estudou nas melhores escolas de fora da cidade, formou-se engenheiro elétrico, se tornou político, governando o Estado por duas vezes, e emprestou seu nome ao estádio municipal de Guaçuí.
Desde os tempos mais remotos, sempre foi grande a rivalidade regional entre Alegre e seu distrito mais importante, Veado, mais tarde Siqueira Campos, em homenagem a um dos líderes do ataque ao Forte de Copacabana em 1922 e do movimento tenentista que convulsionou
São Paulo em 1924, e que originou a famosa Coluna Prestes. Siqueira Campos morreu num acidente aéreo no Rio da Prata quando retornava para participar do movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
A emancipação de Veado deu-se em 1928, o batismo com o nome de Siqueira Campos em 1931 e a toponímia definitiva de Guaçuí (em tupi “águas de veado”) em 1943. Em 2020, Guaçuí ultrapassou Alegre pela primeira vez em população, estimada em 31.122 habitantes pelo
IBGE, tornando-se a maior do Caparaó capixaba. Pouco mais de 1.100 habitantes do que Alegre, que perdeu parte de seu território recentemente para Jerônimo Monteiro.
Voltemos ao Veadense. Fiéis à rivalidade, a formação do time foi uma reação à fundação, em
Alegre, do Rio Branco Sport Club, em 17 de setembro de 1917. Os jovens veadenses resolveram formar seu time, dois meses depois. O ato estava no esquecimento porque, ao atingir a maioridade, em 1935, o Veadense mudou de identidade: tornou-se Sport Club Capixaba, o time que foi conhecido por todas as gerações posteriores até os dias atuais.
Mas quem se preocupa com a história não morre na ignorância. Graças ao trabalho da Associação Sempre Viva, que reúne historiadores, escritores e outras pessoas preocupadas com a memória da comunidade, e é presidida pela comendadora Maria Madalena Emery de Carvalho, o Veadense foi resgatado e ganhou uma placa em homenagem ao seu centenário de fundação, colocada no Estádio Municipal.
“A homenagem era para ter sido feita há quatro anos, mas não houve reciprocidade da administração anterior”, lamentou a lúcida dona Maria Madalena, aos 96 anos. E ela tem motivos de sobra para se orgulhar do Veadense. Afinal, um dos fundadores foi seu pai, Wlademiro de Azevedo Carvalho, junto com o irmão Hermes de Azevedo Carvalho e mais Irineu Barberino, Lino Guimarães, Agenor Luiz Tomé, Adauto Barbosa Lima, Durval Emery, Machadinho e Chiquinho Lacerda de Aguiar, sob “inspeção técnica do Sr. Belotti”.
Membro da Associação Sempre Viva e presidente da Confraria Caparaoense de Letras e Artes (Concapla), o escritor Webber Müller, que, apesar do sobrenome, não tem nenhuma relação com o “inventor do futebol brasileiro” Charles Miller, elogiou a sensibilidade do secretário Eleon Spala, da Cultura.
“Spala foi um craque de bola que brilhou em times de renome internacional e mostrou-se sensível ao acolher nossas propostas de resgatar e preservar a memória e a história de nossa Guaçuí. A instalação da placa comemorativa ao centenário do União Veadense é o testemunho maior dos ensinamentos de
Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira: todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje. Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos”, filosofa Webber.
A placa em homenagem ao centenário do União Veadense não permite que caia no esquecimento o pioneirismo de seus fundadores e faz a cidade de Guaçuí sentir orgulho de um dia ter sido Veado.