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Leonel Ximenes

Cidade no ES foi base de guerrilha e agora esconderijo da extrema-direita

Com localização estratégica, pequeno município foi surpreendido por abrigar um militante bolsonarista preso pela PF

Publicado em 23 de Janeiro de 2023 às 02:11

Públicado em 

23 jan 2023 às 02:11
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Guaçuí, onde a PF prendeu um bolsonarista golpista em uma pousada
Guaçuí, onde a PF prendeu um bolsonarista golpista em uma pousada Crédito: PMG
Base da primeira guerrilha contra a ditadura militar, entre 1966 e 1967, a cidade de Guaçuí  foi surpreendida nos últimos dias ao saber que abrigava um ativista de extrema-direita. Ele foi preso pela Polícia Federal, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), suspeito de financiar atos antidemocráticos no país. Nem o conhecido Cristo Redentor que abençoa a cidade imaginava tal desfecho.
Carlos Victor de Carvalho, assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio, é da cidade de Campos dos Goytacazes, naquele Estado, mas acabou sendo preso pela PF em uma pousada na cidade capixaba do Caparaó, região que foi palco da guerrilha de esquerda contra a ditadura instaurada no Brasil em 1964.

 A HISTÓRIA DA GUERRILHA EM GUAÇUÍ

Como lembra o jornalista e pesquisador capixaba José Caldas da Costa, autor do livro “Caparaó - A primeira guerrilha contra a ditadura”, o Ato Institucional nº 1 (AI-1) do governo militar teve como suas principais vítimas os militares que eram ligados ao presidente constitucional deposto João Goulart. Mas o novo governo, instalado em abril de 1964, cassou também muitos civis, dentre eles vários políticos que haviam apoiado o movimento golpista.
“A maior parte dos militares cassados pelo AI-1 era de praças e oficiais de baixa patente, principalmente aqueles que tinham relações com a organização classista da categoria e também os marinheiros que participaram de movimentos de sustentação ao governo deposto, principalmente ao longo do mês de março”, afirma Caldas.
"Guaçuí sempre mostrou um certo protagonismo político, mas ter sido escolhida como esconderijo de um extremista de direita é surpresa"
José Caldas Costa - Jornalista e pesquisador
Sem chances de sobrevivência e em tempos em que as ideias estavam vinculadas à Guerra Fria do mundo bipolar (EUA x União Soviética), um grupo desses militares expulsos se organizou e buscou apoio de políticos exilados - especialmente João Goulart e Leonel Brizola - para resistir em armas. “Foi disso que resultou a primeira tentativa de implantação de uma guerrilha na região do Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais”, destaca.

LIVRO RESGATA A HISTÓRIA DA GUERRILHA NO CAPARAÓ

A história está bem explicada no livro "Caparaó - a primeira guerrilha contra a ditadura" (Editora Boitempo, 2007), que recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Melhor Livro Reportagem no ano em que foi lançado e serviu de referência para o documentário "Caparaó", do cineasta Flávio Frederico, que venceu o Festival Internacional É Tudo Verdade.
Capa do livro sobre a Guerrilha do Caparaó escrito pelo jornalista capixaba José Carlos Costa
Capa do livro sobre a Guerrilha do Caparaó escrito pelo jornalista capixaba José Carlos Costa Crédito: Divulgação
O livro é resultado da pesquisa do jornalista José Caldas da Costa, hoje diretor do portal Tribuna Norte-Leste, e foi considerado pela revista Época como uma das 50 obras mais importantes para se entender o regime militar no Brasil.
Enquanto o grupo de resistentes se organizava nas montanhas do Caparaó, uma rede de apoio se formava, envolvendo mais de 100 pessoas, inclusive no exterior. “Em Guaçuí, o pai de um dos participantes da guerrilha se instalou como um pequeno comerciante na Rua do Norte, em companhia do filho mais novo. Na verdade, era o armazém da guerrilha. Homens que se apresentavam como carvoeiros levavam os alimentos para a serra em lombos de mulas”, lembra o jornalista e pesquisador.
Em 2019, prossegue José Caldas, agricultores da região encontraram vestígios do que poderia ter sido o primeiro acampamento dos guerrilheiros na região de São João do Príncipe, em Iúna. A notícia acabou se confirmando por pesquisas de arqueólogos do Iphan, órgão que declarou o local como o sítio arqueológico "Casa da Guerrilha".
A chamada Guerrilha do Caparaó terminou com a prisão dos seus integrantes entre o final de março e início de abril de 1967, depois de nove meses de atividades e sem que tivesse resultado nas pretendidas ações para chamar a atenção do país para a resistência.
Carlos Victor de Carvalho foi preso em Guaçuí, por ordem do STF, suspeito de financiar atos antidemocráticos no país
Carlos Victor de Carvalho foi preso em Guaçuí, por ordem do STF, suspeito de financiar atos antidemocráticos no país Crédito: Divulgação
Quem diria que passados quase 60 anos, a pacata cidade do Sul do Estado e reduto de guerrilheiros de esquerda fosse ser escolhida por um golpista de extrema-direita que tentou acabar com a democracia tão duramente conquistada neste país? Que a Lei o alcance.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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