Como lembra o jornalista e pesquisador capixaba José Caldas da Costa, autor do livro “Caparaó - A primeira guerrilha contra a ditadura”, o Ato Institucional nº 1 (AI-1) do governo militar teve como suas principais vítimas os militares que eram ligados ao presidente constitucional deposto João Goulart. Mas o novo governo, instalado em abril de 1964, cassou também muitos civis, dentre eles vários políticos que haviam apoiado o movimento golpista.
“A maior parte dos militares cassados pelo AI-1 era de praças e oficiais de baixa patente, principalmente aqueles que tinham relações com a organização classista da categoria e também os marinheiros que participaram de movimentos de sustentação ao governo deposto, principalmente ao longo do mês de março”, afirma Caldas.
Sem chances de sobrevivência e em tempos em que as ideias estavam vinculadas à Guerra Fria do mundo bipolar (
EUA x União Soviética), um grupo desses militares expulsos se organizou e buscou apoio de políticos exilados - especialmente João Goulart e Leonel Brizola - para resistir em armas. “Foi disso que resultou a primeira tentativa de implantação de uma guerrilha na região do Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais”, destaca.
A história está bem explicada no livro "Caparaó - a primeira guerrilha contra a ditadura" (Editora Boitempo, 2007), que recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Melhor Livro Reportagem no ano em que foi lançado e serviu de referência para o documentário "Caparaó", do cineasta Flávio Frederico, que venceu o Festival Internacional É Tudo Verdade.
O livro é resultado da pesquisa do jornalista José Caldas da Costa, hoje diretor do portal Tribuna Norte-Leste, e foi considerado pela revista Época como uma das 50 obras mais importantes para se entender o regime militar no Brasil.
Enquanto o grupo de resistentes se organizava nas montanhas do Caparaó, uma rede de apoio se formava, envolvendo mais de 100 pessoas, inclusive no exterior. “Em
Guaçuí, o pai de um dos participantes da guerrilha se instalou como um pequeno comerciante na Rua do Norte, em companhia do filho mais novo. Na verdade, era o armazém da guerrilha. Homens que se apresentavam como carvoeiros levavam os alimentos para a serra em lombos de mulas”, lembra o jornalista e pesquisador.
Em 2019, prossegue José Caldas, agricultores da região encontraram vestígios do que poderia ter sido o primeiro acampamento dos guerrilheiros na região de São João do Príncipe, em Iúna. A notícia acabou se confirmando por pesquisas de arqueólogos do Iphan, órgão que declarou o local como o sítio arqueológico "Casa da Guerrilha".
A chamada Guerrilha do Caparaó terminou com a prisão dos seus integrantes entre o final de março e início de abril de 1967, depois de nove meses de atividades e sem que tivesse resultado nas pretendidas ações para chamar a atenção do país para a resistência.
Quem diria que passados quase 60 anos, a pacata cidade do
Sul do Estado e reduto de guerrilheiros de esquerda fosse ser escolhida por um golpista de extrema-direita que tentou acabar com a democracia tão duramente conquistada neste país? Que a Lei o alcance.