O assassinato de um idoso por um advogado na Mata da Praia, por causa de uma divergência em torno de passeio de cachorros, despertou de imediato no padre Kelder Brandão uma reflexão. O crime banal, ocorrido neste sábado à noite (21), não é um lamentável fenômeno social exclusivo dos pobres moradores da periferia das cidades capixabas, pondera o sacerdote.
“É muito triste tudo isso. O fato mostra que a violência no Espírito Santo não é prerrogativa dos pobres que moram na periferia. O que muda é a abordagem do poder público”, afirma Kelder Brandão, que é pároco do Bairro da Penha e arredores, um dos locais de maior conflito social em Vitória e palco constante de confrontos entre a polícia e criminosos.
No meio desses confrontos, denuncia constantemente Brandão, estão moradores indefesos que não têm para onde correr e se socorrer, ficando muitas vezes expostos a tiroteios e invasão de seus imóveis pela polícia e até pelos próprios criminosos.
“Quando acontece na periferia, o discurso é que precisa aumentar a repressão. Quando acontece em um bairro rico, o discurso é de diálogo, respeito e tolerância. A vida do pobre é tão sagrada quanto a do rico”, adverte Kelder Brandão, que também é coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória.
O padre, que não cansa de denunciar a violência que por vezes atinge supostos inocentes, critica também o comportamento das autoridades: “A cada dia, a gente vê que a vida é banalizada e a violência cultuada. O Estado o tempo todo estimula e produz violência. Basta ver as declarações dos agentes de segurança nas matérias veiculadas. Vejam quanto se investiu em armamento pesado no Espírito Santo, sob o pretexto da guerra ao tráfico”.
Violência do Estado, aliás, que muitas vezes tem a conivência da própria sociedade, segundo o padre “E a resposta da sociedade corrobora com essa prática. Quantos políticos se elegem com essa pauta de ódio e violência? Olhem as Câmaras Municipais, a Assembleia e o Congresso Nacional, como cresceu o número de parlamentares que, dia e noite, fazem apologia a violência como forma de solução para os conflitos. O resultado só pode ser uma sociedade cada vez mais violenta”, lamenta Brandão.
“É importante que a gente invista mais na tolerância, no diálogo, na cultura da paz. Só assim, a gente vai conseguir viver numa sociedade mais civilizada, numa sociedade de paz e que nossos filhos possam passear tranquilamente sem ter medo de sair e não voltar mais", escreveu Ricas.