Por enquanto, tudo é festa. Reeleito no segundo turno, o governador
Renato Casagrande (PSB) colhe os frutos da vitória obtida neste domingo (30) nas urnas, terá dois tranquilos meses para montar o seu próximo governo e vai exercer o poder nos próximos quatro anos acumulando ainda mais experiência e credibilidade advindas do sufrágio popular.
Para Casagrande, entretanto, há um novo e inédito desafio. Que ainda está muito distante, é claro, mas político que se preze tem que ter visão de longo prazo. Refiro-me ao processo sucessório em 2026, último ano do mandato dele, haja vista que Casagrande não poderá mais concorrer ao Palácio Anchieta daqui a quatro anos por já ter sido reeleito agora.
É natural que o socialista, já na entrada dos seus 65 anos de idade em 2026, tente uma cartada óbvia, se desincompatibilize do cargo e concorra, com grande vantagem, a uma das duas vagas para o Senado que estarão em disputa. Sai mais cedo da cadeira de governador, passa o bastão para o seu vice, Ricardo Ferraço (PSDB), e terá que resolver um problemaço: viabilizar um sucessor.
Se Casagrande optar por ter um companheiro de partido para sucedê-lo, aí a coisa complica. Partido médio no espectro político brasileiro, o PSB, no Espírito Santo, é essencialmente o governador, seu maior e disparado líder. Sem Casagrande, a sigla fica mais frágil para alçar voos mais altos, como disputar com alto poder de fogo a cadeira do comandante do Estado no Palácio Anchieta.
Quem, objetivamente, tem credenciais e força política para suceder Casagrande no PSB? Esse nome hoje não existe e, portanto, terá que ser construído desde já pelo governador. Mas nada impede que aliados de outros partidos abrigados no guarda-chuva do socialista trabalhem pela construção de uma alternativa, o que pode colocar em risco a aliança ora no poder, de 11 partidos coligados, bem antes do último ano de mandato do governador.
Se resolver abrir mão de ter um sucessor “puro-sangue” do PSB, a tarefa de Casagrande fica menos difícil, mas nem assim menos complexa. Afinal, em uma ampla coalizão governamental é natural que vários atores queiram ter um protagonismo maior. O desafio do governador é operar com sintonia fina para não provocar grandes estragos na sua base de sustentação política.
Uma alternativa natural seria alçar seu futuro vice, Ricardo Ferraço, à sua sucessão, mas nada garante que os aliados de Casagrande, no próprio
PSB e nas siglas da sua ampla coalizão, comprem essa solução. Apagado nos últimos anos, o tucano, de volta à arena política, pode enfrentar grandes resistências nesse arranjo, haja vista que outras lideranças também almejam, de forma legítima, o cargo de governador.
Portanto, a hora é de Casagrande e seus parceiros na disputa eleitoral de 2022 comemorarem a difícil e suada vitória neste inédito segundo turno no Estado desde 1994. Mas, se o governador não for hábil o suficiente para liderar o processo da sua sucessão, o seu terceiro governo pode sofrer trincas que podem abalar sua sustentação política a médio prazo.
Daqui a algum tempo a festa dará lugar a esse intrincado jogo de xadrez. Casagrande já mostrou que não é peão, mas vai ter que provar logo ali na frente que é rei. Façam suas apostas.