A crise não começou na cozinha, mas foi neste setor que ela veio a público e chocou muita gente. No último dia 4, um comunicado da nutricionista que viralizou nas redes sociais informava que, a partir daquela data, uma série de medidas seriam adotadas para tentar diminuir a insolvência financeira do Hospital de
Montanha, o único da cidade do
Norte do Espírito Santo.
Entre as medidas anunciadas estão a oferta de apenas uma verdura na refeição dos funcionários; a não entrega de almoço para paciente em observação; a restrição de copos para funcionários e acompanhantes de pacientes internados; e a disponibilização de ovo cozido para o funcionário que não quiser a carne do dia.
Fundado há 60 anos e de caráter filantrópico, o hospital é gerido pela Sociedade Beneficente de Montanha, cuja diretoria foi renovada há cerca de um mês. “Encontramos a situação mais grave do que imaginávamos, faltava gestão profissional, muita coisa foi se atropelando ao longo do tempo”, lamenta o presidente da instituição, Wenison José dos Santos Reis, um comunicador social de apenas 30 anos de idade.
E põe grave nisso. Wenison admite que o descontrole administrativo era tão grande que a atual diretoria da entidade provedora do Hospital de Montanha tem dificuldade até em saber a real dívida da instituição e o quantitativo de funcionários.
“Quando assumimos contratamos uma consultoria que nos sugeriu uma auditoria no hospital. Até agora, a dívida levantada com Imposto de Renda, FGTS e outros impostos federais está em torno de R$ 2,5 milhões. Descobrimos também que além dos funcionários, temos prestadores de serviço que, na prática, atuavam como funcionários. Estamos levantando esse número.”
Outro buraco descoberto pela auditoria refere-se à dívida com fornecedores, que até agora não foi detalhada. O motivo: “Toda hora aparece uma dívida nova acumulada e que nos surpreende”, revela Wenison Reis. “Mas essa dívida já está em pelo menos R$ 400 mil.”
O Hospital de Montanha tem apenas oito médicos, que se revezam em plantões de 24 horas. A meta do provedor é ter dois médicos atendendo durante o dia e um no plantão noturno e de madrugada. A unidade oferece à população serviço de emergência e pediatria e faz pequenos procedimentos de raios-x.
E apesar de ter o nome de Hospital e Maternidade Nossa Senhora Aparecida, há muitos anos não são realizados partos na unidade.
Com a auditoria e as medidas de austeridade que diz estar adotando, o provedor espera regularizar a situação financeira e jurídica do hospital para que ele possa firmar novos convênios e, consequentemente, fazer novos investimentos na unidade, que sobrevive apenas com um repasse mensal de R$ 250 mil da prefeitura e R$ 45 mil do
Ministério da Saúde.
Enquanto quebra a cabeça para manter a estrutura hospitalar de pé, o presidente da Sociedade Beneficente de Montanha admite adotar medidas amargas para viabilizar financeiramente o Hospital de Montanha. “Não descartamos o desligamento de pessoal”, avisa Wenison Reis.
Maior vítima dessa situação desastrosa, a população de Montanha e arredores quer saber: até quando o hospital da cidade vai ficar na UTI?