Ex-jogador capixaba que faz sucesso nos EUA está investindo no ES
Leonel Ximenes
Ex-jogador capixaba que faz sucesso nos EUA está investindo no ES
Carlos Henrique, que foi descoberto na Desportiva e jogou no Flamengo, brilhou nos estádios brasileiros e da América Latina
Publicado em 25 de Outubro de 2020 às 05:00
Públicado em
25 out 2020 às 05:00
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Carlos Henrique é empresário nos EUA e agora investe em rochas ornamentais no ESCrédito: Divulgação
O famoso “sonho americano” virou realidade para o capixaba Carlos Henrique, que brilhou nos estádios brasileiros e da América Latina, nos anos 1980 e 90 hoje, é um próspero empreendedor nos Estados Unidos e investe, silenciosamente, no segmento de beneficiamento de rochas ornamentais.
Nos anos 1970, o moleque serelepe brilhava nos campos de futebol de Cachoeiro de Itapemirim. Eram tempos, segundo ele, em que bairros tinham campos à vontade e craques brotavam mais que as gramíneas nos pisos desgastados. Meninos sonhavam com o futuro no futebol, inspirados pela ascensão de Pelé ao status de rei do futebol, e muitos deles conseguiram passaram pelo estreito funil e jogar em grandes clubes.
Os irmãos mais velhos de Carlos Henrique eram bons jogadores, segundo testemunhos da época, e até o pai teria sido bom de bola. Mas, como em praticamente toda família da época, a receita seguida era estudar mais do que os pais, começar a trabalhar cedo e, se sobrasse tempo, jogar futebol como diversão.
Trabalhando e jogando no time de uma fábrica de cimento, o menino divertia-se com o futebol e, formado eletricista aos 14 anos pelo Senai, já nem pensava em fazer futuro no mundo da bola, embora brilhasse também no Grêmio Santo Agostinho, time católico da cidade, quando foi descoberto por um olheiro da Desportiva Ferroviária e levado para Jardim América, em Cariacica.
Chegou “batizado” com seu nome composto: Carlos Henrique. Mas seu jeito esmirrado e veloz levou logo seus colegas a colocarem nele um apelido: Calango. Se falar Calango, ele já sabe que é gente que o conheceu na Desportiva. Chegou num dia e no outro estava entrando no time juvenil num amistoso. Fez três gols e silenciou o vestiário, que duvidava de sua capacidade. Dali, tudo foi muito rápido.
Henrique com a camisa da Seleção Capixaba Sub-20: atuação dele chamou atenção do FlamengoCrédito: Arquivo/A Gazeta
Foi o craque revelação do Campeonato Capixaba de 1978, mas ainda tinha idade para brilhar, em dezembro daquele mesmo ano, na Seleção Capixaba no Campeonato Brasileiro Juvenil, enfrentando seleções fortes como as de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Atuando pela direita, deu um baile no lateral Zanata, que era do Botafogo e jogava na Seleção Carioca. A Seleção Capixaba não passou para a fase seguinte, mas o talento de Carlos Henrique não passou despercebido da imprensa do Rio e nem do Flamengo.
No mês de maio de 1979, Carlos Henrique foi para a Gávea, que formava talvez sua geração mais vencedora, a de Zico, Adílio, Andrade, Júnior, Júlio César, Rondinelli e outros. O veloz ponta, que tanto podia ser utilizado pela esquerda quanto pela direita, pois é ambidestro, foi o maior astro de um time considerado a geração de ouro da Desportiva, que revelou ainda jogadores como o goleiro Rogério, o lateral Wallace, os meias Marcos Nunes e Paulistinha e o centroavante Batalha, todos com passagens por clubes também de fora do Estado.
Carlos Henrique foi campeão brasileiro em 1980 e saiu em meio ao Brasileiro de 1981 (ano da conquista do Mundial pelo Flamengo) por empréstimo para o Londrina, onde até hoje é lembrado, tendo sido artilheiro e campeão paranaense daquele ano. Depois, brilhou no Palmeiras em 83 e 84. Uma contusão num treino o deixou sem poder jogar seu melhor futebol por quase um ano e o tirou da possível convocação para a Seleção Brasileira.
Mesmo contundido, foi contratado pelo Atlético Paranaense e começou sua vida cigana por vários clubes do Centro-Sul do país, sempre fazendo bons contratos. Seu jeito alegre o fez muito querido da turma rubro-negra, e ele ficou muito chegado à família do maior ídolo da Gávea, Zico, cujo irmão, Edu, era técnico do Barcelona de Guayaquil e levou Carlos Henrique para jogar pela primeira vez no exterior, em 1988.
Quando chegou ao Peru, em 1989, Carlos Henrique não saiu mais. Foi para o Alianza de Lima, mas o Sport Boys estava pagando bem para formar um time forte e voltar à Primeira Divisão. Foi no time de El Callao, cidade portuária da região metropolitana de Lima, que Carlos Henrique, lá conhecido como Páris (seu nome é Carlos Henrique Paris Rosa) se consagrou no Peru. Foi considerado o rei da conquista do Campeonato Peruano da Segunda Divisão em 1989 e vice-campeão da divisão principal em 1990 e 91.
Abriu as portas do futebol peruano para antigos companheiros de Flamengo, como Cláudio Adão, artilheiro do campeonato nacional daquele país em 1990 com 46 gols, e Adílio, além de ter tentado ajudar outros, como Mendonça, ex-Botafogo, mas que àquela altura o craque alvinegro já estava com problemas com o alcoolismo, o que acabou levando-o à morte prematura anos depois.
Carlos Henrique não era dado a farras e sempre economizou muito o dinheiro que ganhou no futebol. Sabendo que a carreira de atleta profissional em alto nível é curta, soube investir. Antes mesmo de parar com o futebol, em 1996, montou um restaurante em Lima. Casou-se com uma peruana, fez muitos amigos no futebol e usou seu prestígio para fazer bons negócios posteriormente.
Em 2002, fez como tantos latino-americanos: migrou para os Estados Unidos, inicialmente pensando em montar um restaurante. Chegou na Flórida, mas acabou em Baltimore, maior cidade do Estado de Maryland, onde enxergou outra oportunidade: enquanto decidia sobre o restaurante, aceitou um convite e começou a cuidar dos jardins de uma mansão. Gostou da atividade, pediu indicações e elas foram chegando.
Hoje, aos 62 anos, Carlos Henrique pode dizer que encontrou a prosperidade na “terra das oportunidades”. Tem uma empresa que fatura mais de meio milhão de dólares por ano, com apenas seis empregados, e uma carteira de 50 clientes que ele afirma ser “muito ricos”. Seus dois filhos não jogam futebol, os dois fazem universidade – design gráfico e negócios internacionais. E ele já encontrou outro nicho de mercado: comprar casas baratas em Baltimore, reformá-las e alugá-las.
Os capixabas não sabiam por onde andava Carlos Henrique, mas há cerca de dois meses ele foi descoberto pelo jornalista José Caldas da Costa e contou sua história e seus planos. Nesse período inteiro, a última coisa que ele queria falar era do mundo da bola, por considerar que “futebol é muito triste”. Ou seja, sua história é exceção e não a regra no mundo, aparentemente, glamoroso do futebol. Por isso, foi também a primeira vez que falou com um jornalista brasileiro nesse período, segundo disse.
Henrique (o último agachado à direita) com Zico e cia., no poderoso time do Flamengo de 19 80Crédito: Divulgação
Apesar de passar 20 anos “invisível”, parece que a saudade está batendo. Carlos Henrique está investindo em uma indústria de beneficiamento de rochas ornamentais em Marataízes, no litoral Sul do ES, e, se não fosse a pandemia, o empreendimento já teria sido inaugurado.
“Estou fazendo esse investimento com meu irmão José Antonio, que sempre trabalhou com isso. Um de meus irmãos, Aderbal, já morreu, meus pais também. Começo a investir no Espírito Santo porque quero voltar para o Brasil e para o meu Estado”, anunciou o ex-ponta, que faz planos também de promover, em janeiro, um reencontro com seus ex-companheiros do time de ouro da Desportiva. No restaurante de seu antigo colega de time, Marcos Nunes, em Guarapari.
Seja bem-vindo, Carlos Henrique. Afinal, o bom craque à sua casa torna.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.