A polêmica - anual - está de volta, inclusive nas redes sociais: hoje, 24 de junho, é de fato a data de aniversário de
Cariacica? Bem, não há dúvidas de que neste dia se comemora o padroeiro da cidade, São João Batista, mas também não dá para ignorar que no próprio brasão do município está lá estampada, de forma clara, que a data magna de Cariacica, a da emancipação política, é 30 de dezembro. E como fica?
A atual administração, comandada por
Euclério Sampaio (DEM), prefere comemorar os 131 anos da cidade nesta quinta-feira (24) mesmo, diferentemente da gestão anterior, liderada por Juninho (Cidadania), que tentou estimular a comemoração no dia 30 de dezembro. A Lei Orgânica do município, por sua vez, parece endossar o atual prefeito ao determinar que a comemoração da emancipação político-administrativa seja feita em 24 de junho, contrariando o que indica o brasão oficial
A propósito, o 24 de junho ganhou neste ano um reforço importante, que vem do Palácio Anchieta. É que o governador Renato Casagrande (PSB) sancionou nesta quarta-feira (23), véspera da festa programada pela prefeitura, o projeto de lei do deputado Marcelo Santos (Podemos), aprovado pela
Assembleia, que transfere simbolicamente a capital do Estado para as terras cariaciquenses. Por sinal, é a primeira vez que essa deferência, restrita até então a Vila Velha, Domingos Martins e Anchieta, é feita a Cariacica.
Outra curiosidade é que o prefeito Euclério Sampaio, que é evangélico, não hesitou em reforçar em sua cidade uma data eminentemente católica, marcada por grandes festas em todo o país em louvor ao santo, embora neste ano os festejos estejam praticamente abolidos por causa da pandemia de Covid-19.
Fora do universo político, também há quem apoie a comemoração da festa da cidade no dia do padroeiro. “Não vejo problema algum, a data é o povo que escolhe, a tradição. Se o povo se identificou mais com o 24 de junho, que a vontade popular prevaleça”, analisa o historiador Fernando Achiamé, especialista em história do Espírito Santo.
Para o historiador, as datas cívicas nem sempre são precisas e muitas vezes não têm nem base histórica. Ele cita como exemplo a data maior do próprio
Estado do Espírito Santo. “De uns tempos para cá historiadores creem que o 23 de Maio foi estabelecido depois da Independência [do Brasil, em 1822] de modo arbitrário, porque não existem documentos provando a chegada do [colonizador] Vasco Fernandes Coutinho nesse dia. Mas como viram que naquele ano se comemorou a 23 de maio o Domingo de Pentecostes…”
Achiamé cita outro autor para lançar uma dúvida: o próprio nome do Estado não teria relação com o dia do calendário litúrgico católico: “A tese nova é que o nome Espírito Santo foi trazido por Vasco Fernandes Coutinho devido a essa forte devoção na terra dele, hipótese levantada pelo historiador João Eurípedes Franklin Leal”.
Opinião semelhante tem Getúlio Pereira Neves, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Para ele, vale mais a tradição: “Já existia em Cariacica o povoado, a antiga aldeia, antes da emancipação política. É certo se comemorar em junho”, defende. “Isso acontece também em
Colatina, que tem duas datas, em dezembro e em agosto”, reforça.
Há um outro exemplo de cidade brasileira em que a data do padroeiro é mais forte do que a da fundação da cidade: o
Rio de Janeiro. Na ex-capital do país, fundada em 1º de março (a data cívica), o feriado é comemorado em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, o padroeiro dos cariocas. Mas, oficialmente, as autoridades da capital fluminense não ousam dizer que o aniversário da cidade seja no dia do santo - a data 1º de março ainda é a referência, embora seja um dia normal de trabalho.
“Essas datas comemorativas no Brasil têm vida semelhante às leis, umas pegam e outras não pegam”, resume bem Achiamé, mostrando que esse é mais um traço cultural da nossa sociedade. Se bem que, no caso das leis, essa prática nem sempre é positiva.