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Leonel Ximenes

“Ítalo-capixaba” de 112 anos morre e deixa viúva de 100

Italiano de nascimento, seu  Délio Venturotti chegou a Colatina aos 3 anos de idade e morreu em Florianópolis (SC), onde morava atualmente

Publicado em 04 de Junho de 2022 às 02:11

Públicado em 

04 jun 2022 às 02:11
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Seu Délio soprando as velhinhas pelos seus 112 anos e sua mulher, dona Dulcine, comemorando 100
Seu Délio Venturotti soprando as velhinhas pelos seus 112 anos e sua mulher, dona Dulcine, comemorando 100 Crédito: Álbum de família
No ano passado, ele soprou velinhas no bolo de seus 112 anos na festa que a família fez no dia 29 de outubro. Já estava se preparando para comemorar os 113 anos, mas no último dia 1º, às 23h35, parou de respirar por falência de múltiplos órgãos no Hospital de Caridade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, uma das cidades de melhor qualidade de vida do país, deixando viúva sua mulher por 76 anos, e bem mais nova que ele: 100 anos.
Ítalo-capixaba de 112 anos morre e deixa viúva de 100
Também moram na capital catarinense os quatro filhos – o mais velho com 75 anos e a mais nova com 64 –, todos nascidos em Colatina, na região Noroeste do Espírito Santo, onde o pai foi gerente de uma loja de tecidos até 1969, quando se aposentou.
Mas quem é o personagem central dessa história centenária? É Délio Venturotti, na verdade originário da Itália, mas que chegou à região de Colatina acompanhando o pai, a mãe e mais duas irmãs mais velhas aos 3 anos de idade, em 1913. Com ele vieram as irmãs Elvira, mais velha, então com 4 anos, e Terezinha, ainda bebê, com 6 anos.
“Meu pai morreu completamente lúcido, com memória para cantar os velhos hinos da Igreja Batista junto com minha mãe, esta, sim, sofrendo com demência senil, com lampejos de lucidez”, conta Délio Venturotti Filho, 75 anos, o filho mais velho, que mora no bairro rural de Caieira da Barra do Sul, onde, segundo diz, “pode sair de casa e deixar as portas abertas que ninguém mexe em nada”.
Délio Filho, em conversa com o jornalista José Caldas Costa, mostra que tem ótima memória e conta que o segredo da longevidade do pai é o DNA, segundo atestou a geriatra que o acompanhava. Um de seus irmãos, Virgílio, que morava em Nanuque (MG), morreu em junho do ano passado com 105 anos. Antes, duas irmãs morreram a meses de completar 100 anos – Julieta e Ana Venturotti. Haja longevidade.
Délio, o pai, nasceu na cidade de Calto, na província de Rovigo, no Veneto, e nunca quis se naturalizar brasileiro. Em 1913, os pais dele – Luigi Venturotti, que no Brasil virou Luiz, e Giovanna Arrivabene Venturotti, a Joana – decidiram vir construir a vida no Espírito Santo, constituindo-se na segunda geração de italianos a desembarcarem no Estado. Foram direto trabalhar numa fazenda de café em Mascarenhas, hoje distrito de Baixo Guandu. De meeiro, o avô tornou-se pequeno fazendeiro mais tarde em Linhares.
No Brasil, o casal teve mais cinco filhos: Virgílio, José, Julieta, Aldeia e Ana. Quando Délio tinha 15 anos, sua mãe, Giovanna, morreu e o pai casou-se novamente com Francisca, com quem teve mais uma filha, Zilda, que hoje tem 96 anos e mora na região de Maruípe, em Vitória. Mas Chiquinha também morreu e Luigi casou-se pela terceira vez, com Josefina Ribeiro, e não tiveram filhos, mas a história da família mudou a partir daí.
“Meu avô, minha avó, meu pai e minhas duas tias chegaram católicos da Itália. E assim os outros filhos também foram criados. Mas Josefina havia sido criada pelo missionário americano Loren Reno e sua esposa, que eram da Igreja Batista. Nesse processo ocorreu a conversão do meu pai e dos filhos, um a um. Onde morasse, meu pai queria ter facilidade para ir à igreja e frequentou a Igreja Batista em Florianópolis até seus últimos dias”, conta Délio Filho.
Além de Déio, o ítalo-brasileiro Délio Venturotti e dona Dulcine tiveram também Maria Dulce, hoje com 72 anos; José Venturotti, com 70; e Regina, com 64. Todos moram em Florianópolis, onde a família chegou em 1994 em busca de qualidade de vida. A mesma qualidade que buscou em São Paulo no final dos anos 1960.
“Minha mãe mudou-se para São Paulo em 1967 junto com a gente. Meu pai ficou em Colatina até 1969, como gerente das lojas Baratex, esperando se aposentar. Depois, foi também para São Paulo. Fomos morar no bairro da Pedreira e depois em Santo Amaro, mas a qualidade de vida em São Paulo piorou, ele não podia mais ir à igreja sem correr risco de ser assaltado, e então viemos para Florianópolis”, lembra Délio.
"O irmão Délio era a imagem da serenidade. Quando as reuniões administrativas da igreja esquentavam e havia confusão, era o irmão Délio quem nos exortava, amorosamente, a que nos aquietássemos"
Sidney Givigi - Aposentado, 84 anos, amigo do seu Délio Venturotti
O patriarca da família voltava sempre ao Espírito Santo, para visitar familiares em Guarapari, especialmente o pai Luigi, que morreu na cidade aos 96 anos, e eventualmente também visitava Colatina. Na cidade do Noroeste marcou época na Primeira Igreja Batista, como recorda-se o advogado aposentado Sidney Givigi, que trabalhou sob as ordens de Délio na Baratex antes de formar-se em Direito.
“A história do Délio me inspira. A vida é assim mesmo. Vivemos, mas, a qualquer momento somos chamados à eternidade. Tenho para mim que lá depois de 12 de julho de 2079 certamente também estarei sendo chamado para junto de meu redentor”, brinca Givigi, 84 anos, que mora em Aracaju (SE), no comunicado aos amigos da morte de Délio, seu antigo gerente, aos 112 anos.

O italiano mais velho do mundo

Segundo a revista Insieme,  publicação mensal bilíngue de difusão e promoção da cultura italiana e ítalo-brasileira em Curitiba (PR), seu Délio Venturotti era o italiano mais velho do mundo: nasceu 36 anos antes da proclamação da República Italiana, cujo 76º aniversário se comemorou na quinta (2). Segundo a publicação, o supercentenário nunca se naturalizou brasileiro, nem estava inscrito em algum consulado italiano no Brasil; por isso, seria realizada também sua inscrição no AIRE – o cadastro geral dos italianos no exterior.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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