No ano passado, ele soprou velinhas no bolo de seus 112 anos na festa que a família fez no dia 29 de outubro. Já estava se preparando para comemorar os 113 anos, mas no último dia 1º, às 23h35, parou de respirar por falência de múltiplos órgãos no Hospital de Caridade de Florianópolis, capital de
Santa Catarina, uma das cidades de melhor qualidade de vida do país, deixando viúva sua mulher por 76 anos, e bem mais nova que ele: 100 anos.
Também moram na capital catarinense os quatro filhos – o mais velho com 75 anos e a mais nova com 64 –, todos nascidos em
Colatina, na região Noroeste do Espírito Santo, onde o pai foi gerente de uma loja de tecidos até 1969, quando se aposentou.
Mas quem é o personagem central dessa história centenária? É Délio Venturotti, na verdade originário da
Itália, mas que chegou à região de Colatina acompanhando o pai, a mãe e mais duas irmãs mais velhas aos 3 anos de idade, em 1913. Com ele vieram as irmãs Elvira, mais velha, então com 4 anos, e Terezinha, ainda bebê, com 6 anos.
“Meu pai morreu completamente lúcido, com memória para cantar os velhos hinos da
Igreja Batista junto com minha mãe, esta, sim, sofrendo com demência senil, com lampejos de lucidez”, conta Délio Venturotti Filho, 75 anos, o filho mais velho, que mora no bairro rural de Caieira da Barra do Sul, onde, segundo diz, “pode sair de casa e deixar as portas abertas que ninguém mexe em nada”.
Délio Filho, em conversa com o jornalista José Caldas Costa, mostra que tem ótima memória e conta que o segredo da longevidade do pai é o DNA, segundo atestou a geriatra que o acompanhava. Um de seus irmãos, Virgílio, que morava em Nanuque (MG), morreu em junho do ano passado com 105 anos. Antes, duas irmãs morreram a meses de completar 100 anos – Julieta e Ana Venturotti. Haja longevidade.
Délio, o pai, nasceu na cidade de Calto, na província de Rovigo, no Veneto, e nunca quis se naturalizar brasileiro. Em 1913, os pais dele – Luigi Venturotti, que no Brasil virou Luiz, e Giovanna Arrivabene Venturotti, a Joana – decidiram vir construir a vida no Espírito Santo, constituindo-se na segunda geração de italianos a desembarcarem no Estado. Foram direto trabalhar numa fazenda de café em Mascarenhas, hoje distrito de
Baixo Guandu. De meeiro, o avô tornou-se pequeno fazendeiro mais tarde em Linhares.
No Brasil, o casal teve mais cinco filhos: Virgílio, José, Julieta, Aldeia e Ana. Quando Délio tinha 15 anos, sua mãe, Giovanna, morreu e o pai casou-se novamente com Francisca, com quem teve mais uma filha, Zilda, que hoje tem 96 anos e mora na região de Maruípe, em Vitória. Mas Chiquinha também morreu e Luigi casou-se pela terceira vez, com Josefina Ribeiro, e não tiveram filhos, mas a história da família mudou a partir daí.
“Meu avô, minha avó, meu pai e minhas duas tias chegaram
católicos da Itália. E assim os outros filhos também foram criados. Mas Josefina havia sido criada pelo missionário americano Loren Reno e sua esposa, que eram da Igreja Batista. Nesse processo ocorreu a conversão do meu pai e dos filhos, um a um. Onde morasse, meu pai queria ter facilidade para ir à igreja e frequentou a Igreja Batista em Florianópolis até seus últimos dias”, conta Délio Filho.
Além de Déio, o ítalo-brasileiro Délio Venturotti e dona Dulcine tiveram também Maria Dulce, hoje com 72 anos; José Venturotti, com 70; e Regina, com 64. Todos moram em Florianópolis, onde a família chegou em 1994 em busca de qualidade de vida. A mesma qualidade que buscou em São Paulo no final dos anos 1960.
“Minha mãe mudou-se para São Paulo em 1967 junto com a gente. Meu pai ficou em Colatina até 1969, como gerente das lojas Baratex, esperando se aposentar. Depois, foi também para
São Paulo. Fomos morar no bairro da Pedreira e depois em Santo Amaro, mas a qualidade de vida em São Paulo piorou, ele não podia mais ir à igreja sem correr risco de ser assaltado, e então viemos para Florianópolis”, lembra Délio.
O patriarca da família voltava sempre ao Espírito Santo, para visitar familiares em Guarapari, especialmente o pai Luigi, que morreu na cidade aos 96 anos, e eventualmente também visitava Colatina. Na cidade do Noroeste marcou época na Primeira Igreja Batista, como recorda-se o advogado aposentado Sidney Givigi, que trabalhou sob as ordens de Délio na Baratex antes de formar-se em Direito.
“A história do Délio me inspira. A vida é assim mesmo. Vivemos, mas, a qualquer momento somos chamados à eternidade. Tenho para mim que lá depois de 12 de julho de 2079 certamente também estarei sendo chamado para junto de meu redentor”, brinca Givigi, 84 anos, que mora em Aracaju (SE), no comunicado aos amigos da morte de Délio, seu antigo gerente, aos 112 anos.