Não é nova a prática de se elaborar e divulgar listas de pessoas que devem ser boicotadas por sua opção política, ideológica, religiosa ou até por origem étnico-racial. Na década de 1930, essa iniciativa nefasta era comum na Alemanha nazista, como lembra o capixaba David Nemer, professor da Universidade da Virgínia (
EUA).
“Em 1933, o boicote a lojas e estabelecimentos judeus (“Judenboykott”) foi a primeira ação coordenada do regime nazista contra os israelitas na Alemanha. Em preparação para o boicote, os nazistas criaram listas de estabelecimentos que consideravam ser de propriedade judaica”, destaca Nemer em suas redes sociais.
Por incrível que pareça, fazer e divulgar listas com nomes de pessoas que cometeram o “crime” de pensar diferente voltou a ocorrer, inclusive no Espírito Santo, tendo como alvo agora supostos simpatizantes de
Lula e do PT.
Em pelo menos quatro cidades capixabas, listas semelhantes foram elaboradas e divulgadas em Venda Nova do Imigrante, Barra de São Francisco, Castelo e Vitória. Em comum, a exortação ao boicote de pessoas e comerciantes que supostamente apoiaram e votaram em
Lula, eleito, soberana e democraticamente, presidente do Brasil no último domingo (30).
Como a coluna mostrou nesta terça-feira (1º), um comerciante de Venda Nova incluído na lista de comerciantes e pessoas “petistas” a serem boicotados, protestou contra a perseguição e afirmou que estava muito triste. Nemer cita o caso da capital capixaba.
“É inaceitável e criminoso o que está acontecendo em Vitória, ES. Elaborar lista de boicote a lojas e estabelecimentos pelo fato de seus donos ou trabalhadores terem votado no governador Casagrande e/ou
Lula não só remete aos tempos sombrios do nazismo, mas também mostra como essa gente não preza pela democracia, pluralidade de pensamento e empatia com o próximo”, analisa Nemer.
Na Alemanha, o boicote contra estabelecimentos de propriedade de judeus começou no dia 1º de abril, nas pequenas e grandes cidades do país. O movimento foi programado para ser iniciado às 10h e terminar às 20h.
Em preparação para o boicote, os nazistas criaram listas de estabelecimentos que consideravam ser de propriedade judaica. Eles colocaram nazistas uniformizados (chamados de Stormtroopers ou Tropas das SA) e membros da Juventude Hitlerista do lado de fora das lojas. Os jovens uniformizados intimidavam e ameaçavam os possíveis clientes.
A propaganda antissemita do boicote foi exibida em distritos comerciais e de negócios por toda a Alemanha, tomando formas diversas. Oficialmente, o movimento não deveria ser violento, mas isso não impediu alguns nazistas de espancarem judeus e, em alguns casos, até mesmo de matá-los.
Para os judeus alemães, o boicote foi um momento devastador e o mais gritante dos primeiros meses do regime nazista. Ele enfureceu muitos judeus, mas também assustou vários outros. Foi a primeira vez que o novo governo nazista marcava de forma oficial e pública a população judaica da Alemanha como um grupo distinto, sistematicamente tratando os judeus como diferentes dos demais alemães.
Os judeus proprietários de lojas reagiram de diversas formas ao boicote. Muitos decidiram fechar as lojas naquele dia, pois queriam evitar a violência e a destruição de suas propriedades. Outros israelitas, também proprietários de lojas, de forma desafiadora mantiveram suas lojas abertas. Em alguns casos, os judeus confrontaram os boicotadores nazistas.
O boicote de 1º de abril de 1933 não foi o último ataque do regime nazista contra os estabelecimentos de propriedade judaica, mas, entretanto, foi o último boicote de cunho nacional.
Ao invés de efetuar mais boicotes de caráter nacional, o regime nazista central encontrou outras formas de pressionar os judeus proprietários de estabelecimentos comerciais. Os governos locais e municipais passaram a realizar seus próprios boicotes. Nazistas uniformizados continuaram perseguindo os lojistas judeus.
De forma geral, um número crescente de leis e regulamentos do governo central visava minar o comércio de propriedade judaica. A grande maioria das lojas foi forçada a fechar suas portas nos anos 1930, fazendo com que muitas famílias judaicas perdessem seu meio de sustento. No final de 1938, o regime nazista tinha quase que completamente destruído a vida econômica dos judeus na Alemanha.
Diante dessa história de horror, será que, quase 90 anos depois da ascensão do nazismo, os métodos segregadores do Führer vão se repetir no Espírito Santo, a terra da diversidade por excelência? Ou será que já estão pensando em construir campos de concentração para isolar os “diferentes”?