O nome oficial é Fórum Liberdade e Democracia de Vitória, mas pode chamar de reunião de insatisfeitos e ressentidos com a vitória de
Lula na eleição para a Presidência da República. Promovido pelo Instituto Líderes do Amanhã de Vitória, o primeiro dia da 10ª edição do fórum, realizado nesta quinta-feira (3), no Centro de Convenções de Vitória, foi marcado por ataques virulentos ao presidente eleito na presença do governador
Renato Casagrande (PSB), aliado do petista.
Logo no início da sua participação no painel “Cenário político: perspectivas futuras”, com a presença de Casagrande, que acabara de se apresentar para o público, o deputado federal (reeleito) Marcel Van Hattem (Novo-RS) puxou o coro de “fora,
Lula!”, como se estivesse num comício às margens do Guaíba.
Luiz Philippe de Orléans e Bragança, por sua vez, herdeiro da família imperial brasileira e deputado federal reeleito pelo PL de São Paulo, disse que
Lula não devia nem se candidatar a presidente. O príncipe parlamentar da República contou que esteve nesta quarta (1º) nas manifestações (golpistas) e “viu a dor das famílias ali por causa disso”.
Luiz Philippe ainda tratou o presidente eleito como “ex-presidiário” e teve a concordância da maioria dos presentes. Ainda na sua exposição, defendeu mudanças na legislação para permitir o impeachment dos ministros do Supremo, uma tese bem cara aos bolsonaristas.
Irônico, quando o tempo de exposição dele expirava, o príncipe dizia que pelo menos o ministro Alexandre Moraes (presidente do TSE) não estava ali para fiscalizar. Meio obsessivo, né?
Polido e moderado, o governador afirmou que vai se manter equilibrado, que acredita em um bom governo e que irá trabalhar para ajudar
Lula. Casagrande ainda foi diplomático ao ressaltar que o papel dos deputados é esse mesmo, o de fazer oposição, mas fez uma ressalva: “O governador tem que governar com quem quer que seja o presidente”, ponderou.
Mais adiante, depois da exposição de Casagrande, Luiz Philippe novamente apelou para a ironia: “Bem, já que o governador me deu o privilégio de ser desequilibrado, e ele é o equilibrador, eu acredito que a legitimidade do governo
Lula jamais se estabelecerá na opinião pública. Não há sabão que lave o passado do
Lula”.
E a toada do painel continuou: quando puxavam o grito de ordem “fora,
Lula!”, todo mundo batia palmas; quando chamavam o presidente eleito de “ladrão” e “ex-presidiário”, mais palmas. O vice-presidente Hamilton Mourão, por sua vez, penúltimo expositor do dia, respeitou a liturgia e tratou respeitosamente
Lula, o presidente eleito. Uma honrosa exceção.
Coisa estranha: em um evento que tem liberdade e democracia no nome, era de se esperar que a vontade soberana do eleitor brasileiro fosse pelo menos respeitada. Mas não há sabão que lave o ressentimento.