Médico no ES desabafa: “É revoltante ver gente se matando nas ruas”
Leonel Ximenes
Médico no ES desabafa: “É revoltante ver gente se matando nas ruas”
Especialista que atua na linha de frente de combate à Covid diz que está exausto e alerta: “A situação está muito difícil"
Publicado em 22 de Março de 2021 às 13:59
Públicado em
22 mar 2021 às 13:59
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Leonardo Goltara: “A moral da história é que estou exausto, muito cansado"Crédito: Álbum pessoal
Por força da sua profissão e da sua especialidade, o médico Leonardo Goltara está acostumado a percorrer a tênue fronteira entre a vida e a morte. Mas mesmo para um especialista em medicina intensiva e de emergência, a quinta-feira (18) passada foi um dia especialmente cruel para ele, que há mais um ano tenta, diariamente, salvar vidas da avalanche mortal da Covid-19. Depois de um dia exausto e dramático, restou ao médico desabafar e expor seu drama nas redes sociais.
“Hoje intubei uma criança de 14 anos que se enforcou. Hoje intubei um amigo saturando 72%. Hoje morreram muitos pacientes desse vírus maldito. Hoje vi pacientes que não sedavam. Vi saturações que não melhoravam. Vi choques que não revertiam. Hoje até um intensivista velho acha que os pacientes estão graves demais. Que as coisas passaram de qualquer limite. Hoje não deu”, escreveu Goltara em seu Instagram, numa mensagem que causou grande repercussão e reflexão.
Primeiro médico no Espírito Santo reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como especialista em emergências, Goltara trabalha em vários hospitais da Grande Vitória e também é professor de medicina intensiva e de medicina de emergência.
Muito acionado desde que a pandemia de Covid começou, há mais de um ano, ele conta que sua vida pessoal foi muito impactada: “Todo dia na minha vida alguém está passando pelo pior dia da sua vida. Todo dia atendo uma ou mais pessoas que estão entre a vida e a morte. Algumas não se recuperam. Ninguém que trabalha com pacientes tão críticos assim tem cem por cento de resultado positivo. Mas muitos se recuperam”, consola-se.
"A gente que é experiente, a gente não tem como se furtar a atender, não tem como tirar férias. Como eu, que sei lidar com os pacientes mais críticos, vou parar nessa pandemia (chora), como que vou parar para descansar, para ficar com minha filha e esposa, se tem gente morrendo e não tem todo mundo tem a mesma experiência que eu?"
Leonardo Goltara - Médico intensiva e especialista em emergências
Essa rotina tensa e estressante chegou ao ápice na última quinta-feira. Uma amiga pediu que ele fosse socorrer um parente dela na UPA de Castelândia, na Serra, onde o homem estava internado com Covid e em estado muito grave. Após conversar com médicos da unidade, por telefone, Goltara percebeu a gravidade da situação e foi pessoalmente à unidade de saúde.
Na UPA, o especialista constatou que o caso era realmente muito grave e que era necessário intubar o paciente, o que foi feito. Quando o procedimento terminou, ele foi chamar a família para ver o parente, mas, ainda no corredor, uma enfermeira veio correndo pedindo socorro porque um outro paciente, em outra sala, estava precisando com urgência de ser intubado também, mas no caso dele o procedimento seria mais difícil.
“Fui ajudar. Quando entro na sala, era um garoto de 14 anos (chora), grande, que tinha tentado se suicidar (chora outra vez). As lesões no pescoço eram muito sérias, era realmente uma intubação muito difícil. E de novo, como no caso do parente da minha amiga, sem o material ideal para intubação, sem o local ideal. Essa intubação deu muito trabalho, essa intubação durou vários minutos”, descreve Goltara.
Apesar da surpresa e da gravidade do caso do rapaz, o intensivista conta que reagiu emocionalmente bem no primeiro momento. Mas a fome e o cansaço já começavam a dar sinais eloquentes. “Na hora não me emocionei, era uma questão muito técnica, era como se eu estivesse no meio da guerra. Fiz tudo o que tinha que fazer, seguindo todos os protocolos. Estava sem almoço, eram quase três horas da tarde.”
Depois de conseguir, finalmente, levar a amiga e sua família para ver o parente intubado, o médico foi lembrar-se de comer algo. Com as medidas de restrição da quarentena, conseguiu, após as 15h, comer um pão de padaria antes de retornar ao seu trabalho diário, no Vila Velha Hospital, depois foi pegar a filha pequena na escola e finalmente ir para casa tentar descansar um pouco daquele dia dramático e estressante.
O desabafo do médico no Instagram: quinta-feira trágica e tensaCrédito: Reprodução do Instagram
A primeira tarefa que tentou fazer foi postar alguns textos de natureza técnica, mais voltado para especialistas, no seu Instagram, uma rotina quase que diária desde que começou a pandemia. Mas desta vez não deu: Leonardo Goltara foi consumido pelo cansaço e pela tensão. Foi aí que resolveu publicar o desabafo na rede social.
“Não tinha conseguido fazer um post técnico no Instagram. A única coisa que me veio à cabeça foi fazer um post dizendo que o dia tinha sido muito difícil e traumático. Foi nessa hora que consegui sentir o drama que passei o dia todo, que passou neste ano todo. [Me lembrei] de muita gente morreu, de muita gente que estressou, de muita gente que cansou, de muita gente que descompensou um quadro psicológico, de muita gente que tentou se suicidar, porque não aguenta mais conviver com essa tragédia que está acontecendo”, conta.
De certa forma, a mensagem o ajudou a reunir forças para continuar a jornada no dia seguinte: “O post foi quase um pedido de desculpas para minha audiência no Instagram. Escrevi de coração. E hoje (sexta), eu tive que levantar, sacudir a poeira (chora mais uma vez) e fazer tudo de novo”.
Goltara, 41 anos de idade, casado e pai de uma filha, em momento algum esconde o caos em que estamos e alerta: “A situação está muito difícil. Não existem médicos especializados, em emergência e em terapia intensiva, em número suficiente para essa demanda que aconteceu de uma hora para outra. Não existe gente experiente em pacientes críticos para uma situação dessa”.
Situação tão grave que aquela fatídica quinta-feira não sai da sua mente. E reforça no médico especialista a convicção de que muita coisa está errada na sociedade. E que é preciso mudar comportamentos para superar a maior tragédia da vida brasileira. O médico, claro, se refere às cenas cotidianas de muita gente nas ruas sem máscara, sem distanciamento social, se aglomerando e até participando de festas clandestinas.
“A moral da história é que estou exausto, muito cansado. É revoltante você passar um ano tentando salvar as pessoas, e as pessoas se matando na rua. Não sei mais o que dizer.”
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.