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Leonel Ximenes

Morre no ES, aos 56 anos, “o último dos comunistas românticos”

Apaixonado pelas causas que defendia e militante do PCdoB, Marcelo Zumerle morreu nesta terça-feira, vítima de um câncer

Publicado em 20 de Julho de 2021 às 18:18

Públicado em 

20 jul 2021 às 18:18
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Um brinde à memória de Marcelo Zumerle, um comunista que amava (e curtia) a vida
Um brinde à memória de Marcelo Zumerle, um comunista que amava (e curtia) a vida Crédito: Divulgação
Apenas para brincar de parafrasear Euclides da Cunha, a quem admirava, Marcelo Zumerle foi, antes de tudo, o último dos comunistas românticos. Não tinha o exaustivo mau humor xiita de alguns esquerdistas do litoral.
Era um inconformista confesso e praticante. A militância estudantil na União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e na União Nacional dos Estudantes (UNE) abriu-lhe as portas para o mundo ideológico do PCdoB, partido para o qual devotou todo o lado esquerdo de seu coração. O direito destinou ao Vasco. No meio, a Capital Secreta do Mundo, sua terra natal amada. “Não quero humilhar ninguém, mas sou de Cachoeiro”, provocava.
Marcelo, um apaixonado pela vida, morreu na madrugada desta terça-feira (20), vítima de um câncer. Solteiro, deixou muita saudade, admiração e uma legião de amigos
Seu pêndulo marxista-leninista tendia de forma apaixonada tanto para a linha albanesa quanto para a tendência maoísta. Não importa. Era genuína e convictamente forjado no centralismo democrático e, para onde quer que o seu querido PCdoB fosse, ele ia junto. Feliz da vida. Como quem vai atrás do trio elétrico.
Fez dos bares do Centro de Vitória seu território de resistência, por excelência. Neles, tramou conspirações e guerrilhas. Revoluções e sublevações. Ali, previu a classe operária ir ao paraíso, como no filme de Elio Petri. Ali, promoveu a união dialética entre a teoria etílica e a prática de promover a ocupação de grades e grades de cerveja por garrafas vazias, embora preferisse bebidas destiladas, como o conhaque. Essa foi sua práxis. E sem nunca perder o humor. Jamais.
Conta-se que quando a divisão entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA) caiu em ruínas, em 1989, Zumerle assistiu a tudo incrédulo, de uma mesa de bar. Inconformado, punho cerrado, ergueu o braço direito e protestou a quem quisesse ouvir: “Abaixo a queda do Muro de Berlim!” Deu uma sonora risada e voltou aos “trabalhos” com seus colegas de mesa. O que não podia cair era a causa da Revolução.
"Marcelo era um cara muito discreto, um 'antilord' comunista! Um ás do copo e da boa conversa. Capaz de circular e tratar dos mais diversos temas com elegância e fina ironia. Um comunista por convicção, um observador arguto do comportamento, um coadjuvante elegante que sempre foi o maior protagonista no papel que lhe deu o cotidiano."
Márcio Vaccari - Professor de História
Era engraçadíssimo e cultíssimo. Tenro, envolvente, irônico. De um humanismo luminar. O ex-vereador e dirigente do PCdoB Namy Chequer, para quem Zumerle produziu o programa “Ponto de vista”, na Universitária FM, conta que o camarada era um “intelectual com zero de deslumbramento acadêmico”. “Todo mundo gostava dele, não tinha inimigos”, atesta Namy.
Ilustração do professor de História Márcio Vaccari, em homenagem ao amigo. Da esquerda para a direita, Marx, Engels, Lênin e Marcelo Zumerle
Ilustração do professor de História Márcio Vaccari, em homenagem ao amigo. Da esquerda para a direita, Marx, Engels, Lênin e Marcelo Zumerle Crédito: Márcio Vaccari
Gente fina, elegante e sincera, circulava com desenvoltura por todo o arco das esquerdas: do PCO ao PT, passando pelo PSOL, PCB e seu amado PCdoB. Era uma unanimidade no meio. Querido e admirado. Como são queridos e admirados esses raros seres iluminados, ou seja lá o que isso queira dizer.
Aos 56 anos, quis a vida, essa misteriosa senhora, segurar a mão desse menino e convidá-lo para a viagem sem fim. Não sem antes fazer soar as trombetas de todo o além anunciando que a Revolução está próxima.
Marcelo Zumerle talvez nunca tenha existido. Talvez tenha sido apenas um sonho coletivo de muitos. Talvez.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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