Apenas para brincar de parafrasear Euclides da Cunha, a quem admirava, Marcelo Zumerle foi, antes de tudo, o último dos comunistas românticos. Não tinha o exaustivo mau humor xiita de alguns esquerdistas do litoral.
Era um inconformista confesso e praticante. A militância estudantil na União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e na União Nacional dos Estudantes (UNE) abriu-lhe as portas para o mundo ideológico do PCdoB, partido para o qual devotou todo o lado esquerdo de seu coração. O direito destinou ao Vasco. No meio, a Capital Secreta do Mundo, sua terra natal amada. “Não quero humilhar ninguém, mas sou de
Cachoeiro”, provocava.
Marcelo, um apaixonado pela vida, morreu na madrugada desta terça-feira (20), vítima de um câncer. Solteiro, deixou muita saudade, admiração e uma legião de amigos
Seu pêndulo marxista-leninista tendia de forma apaixonada tanto para a linha albanesa quanto para a tendência maoísta. Não importa. Era genuína e convictamente forjado no centralismo democrático e, para onde quer que o seu querido PCdoB fosse, ele ia junto. Feliz da vida. Como quem vai atrás do trio elétrico.
Fez dos bares do
Centro de Vitória seu território de resistência, por excelência. Neles, tramou conspirações e guerrilhas. Revoluções e sublevações. Ali, previu a classe operária ir ao paraíso, como no filme de Elio Petri. Ali, promoveu a união dialética entre a teoria etílica e a prática de promover a ocupação de grades e grades de cerveja por garrafas vazias, embora preferisse bebidas destiladas, como o conhaque. Essa foi sua práxis. E sem nunca perder o humor. Jamais.
Conta-se que quando a divisão entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA) caiu em ruínas, em 1989, Zumerle assistiu a tudo incrédulo, de uma mesa de bar. Inconformado, punho cerrado, ergueu o braço direito e protestou a quem quisesse ouvir: “Abaixo a queda do Muro de Berlim!” Deu uma sonora risada e voltou aos “trabalhos” com seus colegas de mesa. O que não podia cair era a causa da Revolução.
Era engraçadíssimo e cultíssimo. Tenro, envolvente, irônico. De um humanismo luminar. O ex-vereador e dirigente do PCdoB Namy Chequer, para quem Zumerle produziu o programa “Ponto de vista”, na Universitária FM, conta que o camarada era um “intelectual com zero de deslumbramento acadêmico”. “Todo mundo gostava dele, não tinha inimigos”, atesta Namy.
Gente fina, elegante e sincera, circulava com desenvoltura por todo o arco das esquerdas: do PCO ao
PT, passando pelo PSOL, PCB e seu amado PCdoB. Era uma unanimidade no meio. Querido e admirado. Como são queridos e admirados esses raros seres iluminados, ou seja lá o que isso queira dizer.
Aos 56 anos, quis a vida, essa misteriosa senhora, segurar a mão desse menino e convidá-lo para a viagem sem fim. Não sem antes fazer soar as trombetas de todo o além anunciando que a Revolução está próxima.
Marcelo Zumerle talvez nunca tenha existido. Talvez tenha sido apenas um sonho coletivo de muitos. Talvez.