Tem gente comparando o caso à Sucupira, mas a bizarra cidade criada pela mente genial do dramaturgo Dias Gomes talvez ficasse constrangida em saber que na pequena e pouco conhecida
Água Doce do Norte, no interior do Espírito Santo, um vice-prefeito, que é pago regiamente pelos cofres públicos para substituir o titular em caso de necessidade, mora há dois anos em Nova York (EUA), a mais de 8 mil quilômetros de distância de onde deveria estar. A distância física é gigantesca, a indiferença à moralidade pública, imensurável.
Mas, como diz o adágio popular, a mentira tem pernas curtas. Quis o destino que o prefeito de Água Doce, Paulo Márcio Leite (DEM), contraísse a temível Covid-19 e
precisasse ser internado na UTI de um hospital de Colatina. Bem, sem prefeito, chamem o vice para assumir, afinal, é para isso, precipuamente, que existem os vices, certo? Mas cadê o senhor Jacy Donato, do Partido Verde?
Não adianta procurá-lo, sua excelência verde está longe, bem longe, em
Nova York, a “capital do mundo”. Mas o que o vice-prefeito da cidade do Noroeste capixaba está fazendo na metrópole americana? Ninguém explica, nem ele. Água Doce é para os fracos, deve estar pensando Donato.
Por falar em pensar, uma questão vem intrigando muita gente: como durante todo esse tempo Água Doce do Norte não reagiu à ausência na cidade do seu vice, que recebe R$ 5,7 mil do Erário municipal? A população não se incomodava com esse absurdo? E os vereadores e as demais autoridades constituídas para fiscalizar o Executivo, por que não agiram a tempo? Se o prefeito não caísse doente, a sociedade capixaba não iria saber dessa grave irregularidade?
Alguns vereadores e membros da administração municipal argumentam que a Lei Orgânica Municipal é omissa em relação ao afastamento do vice-prefeito, que, assim, não precisaria de autorização para se ausentar por mais de 15 dias da cidade. Mas a Constituição Federal, que nos artigos 49 e 83 trata do assunto, não poderia ser aplicada por assimetria neste caso?
Essa autêntica ópera-bufa tem laivos de tragédia. No país do presidente negacionista, dos mais de 70 mil mortos pela pandemia de Covid-19 e dos quase 2 milhões de contaminados pelo vírus, um vice-prefeito escarnece da sociedade e dos princípios republicanos ao morar a milhares de quilômetros do seu local de trabalho, mas sem abrir mão do seu generoso salário.
Ser vice, geralmente, é motivo de desonra na cultura esportiva brasileira, vide o trauma que a seleção brasileira carrega desde 1950, no Maracanaço uruguaio. Mas em Água Doce do Norte, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes no ES, o vice mora na metrópole americana, recebe seu salário normalmente e nem precisa se apresentar para substituir o titular em caso de necessidade, como agora. É um vice que é campeão da falcatrua derrotando o povo que o sustenta.
Dias Gomes, meu velho, nesta Sucupira perdeu feio. Aqui, o Odorico Paraguaçu é o vice. E não tem Nesinho do Jegue para atormentá-lo. Foi mal.