Segundo Ethel, locais de aglomeração, como shoppings e
escolas, deveriam ficar fechados até que houvesse uma diminuição da aceleração da curva de contágio da doença. “É desaconselhável abrir shoppings com o Rt (velocidade de transmissão) acima de 1. Atualmente estamos em 1,7. É extremamente desaconselhável e proibitivo o retorno escolar com o Rt acima de 1. Com esse nível, deveríamos ter apenas serviços essenciais em funcionamento”, defende.
A decisão do governo de flexibilizar o funcionamento dos shoppings, ainda que com restrições de horário de funcionamento e com adoção de medidas de segurança de higiene, veio em hora errada para a epidemiologista. “Isto significa que pode aumentar o número de pessoas que vai se contaminar e morrer. Ainda estamos no início deste aumento do número de mortes que estamos observando nas duas últimas semanas.”
Os shoppings, lembra Ethel,
pressionaram o governo outras vezes para retomar a atividade. “Este não foi o primeiro movimento dos shoppings para abrir. Em todos os outros movimentos nós, pesquisadores, nos posicionamos contrariamente à reabertura porque na verdade não é apenas a questão do cliente que vai ao shopping. Em apenas um shopping da região metropolitana de Vitória temos a movimentação de mais de 5 mil trabalhadores”, afirma.
Ela lembra que esses trabalhadores do comércio, incluindo o pessoal da limpeza e da segurança, terão que sair de suas casas e se arriscar todos os dias no ônibus: “Eu já havia colocado isso na
Sala de Situação [do governo do Estado]. Sempre achei que as decisões precisam ser pensadas do ponto de vista global. Como essas pessoas, principalmente as mulheres, as maiores cuidadoras das casas, vão fazer? Como as mulheres trabalhadoras que têm filhos pequenos vão fazer se não têm escolas e creches abertas?”.
Ethel diz que teme pela saúde dessas crianças com a volta das suas mães ao trabalho neste momento da pandemia. “Como professora de Enfermagem, já vi muito isso acontecer.
Nos bairros de classe social D e E, mulheres pagam uma outra mulher para cuidar dos filhos em locais que são totalmente inapropriados para receber crianças. Geralmente uma vizinha vai cuidar de muitas crianças. Essas crianças ficarão em locais vulneráveis e insalubres e sujeitas ao risco de contaminação”, destaca.
Outra questão apontada por ela é o perigo do uso do transporte coletivo, que, segundo a pesquisadora, é local de grande contaminação. “Há muitas outras questões envolvidas na abertura desses locais que movimentam muitas pessoas. Não se trata apenas da segurança dos clientes. Ninguém está falando das pessoas que trabalham nesses locais. São as pessoas que vão ter que pegar os
coletivos, os ônibus, que são locais de grande transmissão da doença. Como a gente vai garantir a segurança dessas pessoas?”, questiona.
Ethel Maciel considera que a flexibilização do funcionamento das atividades dos shoppings pode passar um quadro irreal para a população em relação ao coronavírus. “Há uma terceira questão importante que é a mensagem que passa para a sociedade, de que está tudo bem, que a vida está voltando ao normal, que os shoppings estão abertos e podem vir. É uma mensagem que eu acho extremamente perigosa neste momento em que muitas pessoas poderão perder suas vidas”, alerta.
A pesquisadora da Ufes diz que a
Covid-19 é a doença que mais está matando no Brasil neste ano. E propõe medidas para enfrentar a pandemia: fechar o máximo de atividades e garantir o isolamento para reduzir a velocidade de transmissão da doença; e depois, com o Rt abaixo de 1, iniciar o plano de abertura das atividades econômicas. “Qualquer coisa diferente disso está longe de ser considerada e embasada pela ciência”, conclui.