Guardem esta data: 31 de março de 2022. Nesta quinta, a
Assembleia Legislativa do Espírito Santo vai protagonizar um espetáculo grotesco e, ao mesmo tempo, triste. Por iniciativa do obscuro
deputado Capitão Assumção (PL), o Legislativo capixaba, aquele Poder que deveria representar o povo, vai “comemorar” os 58 anos do golpe militar de 31 de março de 1964. Mas comemorar o quê?
Pode-se dizer que é o nosso Dia da Infâmia, fazendo um paralelo histórico com a reação do presidente Truman após os Estados Unidos serem atacados pelos japoneses em Pearl Harbor, na Segunda Guerra Mundial.
Sim, um ato infame, debochado, irresponsável e que revela que democracia não é um valor universal para a Assembleia Legislativa do Espírito Santo, que permitiu esse disparate. Certo, presidente Erick Musso?
A infâmia americana, é bom ressaltar, acabou tendo uma consequência positiva, pois levou o país a se levantar e lutar contra as forças nazifascitas e seus aliados, como o Japão. Lutar e vencer. Aqui no ES, porém, resta à sociedade ficar estupefata diante de uma sessão solene que pretende homenagear uma das páginas mais absurdas da nossa História.
Pelo que consta nos registros da Assembleia, a Sessão “Especial” (especial?) foi aprovada na sessão de 8 de fevereiro último pelos nove deputados que estavam presentes à sessão (Bruno Lamas, Capitão Assumção, Danilo Bahiense, Doutor Hércules, Freitas, Luciano Machado, Marcelo Santos, Marcos Garcia, Sérgio Majeski) e outros nove que votaram virtualmente (Carlos Von, Alexandre Quintino, José Esmeraldo, Hudson leal, Janete de Sá, Marcos Madureira, Renzo Vasconcelos, Theodorico Ferraço, Vandinho Leite. (Erick Musso estava presente, mas não vota por ser o presidente da Casa).
Ou seja, temos 18 dos 30 parlamentares do Legislativo estadual capixaba que deram seu aval para uma sessão que presta homenagem a um ato antidemocrático. Não é uma contradição?
Será que esses deputados que votaram a favor sabem o que aconteceu após aquele fatídico 31 de março de 1964? Foram 434 mortos pelas forças da repressão, segundo a Comissão Nacional da Verdade, um sem-número de brasileiros torturados, mutilados, desaparecidos, banidos do país, cassados. Partidos políticos foram extintos. As artes, a cultura e a Imprensa foram amordaçadas. Os inúmeros casos de corrupção e mau uso do dinheiro público acabaram encobertos pelo terror do Estado brasileiro. Foram 21 anos de trevas.
Certamente, se dependesse dos muitos dos artífices do golpe de 64, nem Assembleias Legislativas teríamos até agora. É bom lembrar que só existe deputado Capitão Assumção porque existe democracia, este edifício de liberdade que políticos como ele todo dia trabalham para sabotá-lo.
Ainda há tempo,
deputado Erick Musso, de o senhor salvar sua biografia e impedir que, em nome da democracia, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo preste um inaceitável tributo a um dos períodos mais obscuros da nossa História brasileira. Tenha coragem cívica e espírito democrático, atenda o pedido da OAB-ES e dos setores democráticos da sociedade capixaba e cancele essa sessão que é um tapa na cara da jovem democracia brasileira.
É hora de ter coragem, deputado. Não se omita, ou o senhor terá que convocar uma sessão para lembrar o Dia da Infâmia do Legislativo capixaba.